LENDA DO OLHAR ENGANATIVO | Uma Cofap mofada nos adotou e estamos descobrindo a arte da dominação canina

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O primeiro contato foi pelas redes sociais, a Cofap, apelido muito famoso no Brasil devido a uma antiga campanha publicitária; os mais antigos devem lembrar. A campanha ocorreu entre os anos 80 e 90. Criada pelo grande publicitário Washington Olivetto (in memoriam). Era genial mesmo, o Linguiça era utilizado para fazer uma analogia bem-humorada entre o formato alongado do cãozinho e o formato dos amortecedores de uma certa empresa. Foi um sucesso; por anos se falava no país o slogan: “O melhor amigo do carro e do dono do carro”. Mas não é sobre comercial famoso o assunto.

Vamos ao segundo contato: “a chegada da arlequim vermelha de olhos verdes e com cara de pidão”. Uma hipnotizadora nata no olhar, com sua pelagem avermelhada com manchas em tons mais claros, acinzentados e marrom. A grande magia da famosa “mofadinha”. A explicação dessa mágica é um gene chamado “merle”. Mas também não é sobre as características da raça que queremos falar.

O contato final: a dominação e, por fim, a nossa domesticação. Sim, a Guilhermina — Gui — chegou faz pouco mais de três meses. Tudo mudou, e eu fui avisado, mas sou um humano bobo, comandado por três seres evoluídos da raça feminina. Fui convencido pela minha esposa, Cintia, e pela minha enteada, Manu, a receber a Rainha Guilhermina em nosso lar.

Visitando a bisavó Ione Leite, com suas duas humanas, Cintia e Manu

As armadilhas são feitas para quem cai. Já havia tido contato com a grande Cofap Bebel — outra Dachshund — do Gabriel, filho de minha companheira, e sua esposa Thamiris. A Bebel nasceu no Sul, mas vive em terras cariocas agora; já é uma senhora com seus lindos cachos marrons e longos. Mas não é da maravilhosa Bebel o assunto; o papo é sobre a capetinha mofada chamada Guilhermina.

Bebel, nossa carioquinha amada, e sua pelagem longa

A estrategista — Cofap, Mofadinha ou linguiça — Guilhermina me lembra o Gato de Botas do Shrek; quem resiste àquele olhar?

Eu não tinha ideia, por trás ou adiante, daquelas pernas curtas, corpo alongado e um ego que não cabe dentro de casa, existia um olhar, a grande armadilha da dominação. A verdadeira arma secreta dessa raça não está em sua estrutura física peculiar, mas sim em uma lenda canina que se comprova diariamente na casa de seus tutores: o mito do olhar enganativo.

Tirando uma “onda” com seu humano bobão, que caiu no “olhar pidão”

Para entender nossa relação com a Guilhermina, é preciso primeiro desmascarar a expressão facial da pequena rainha. Fui pesquisar cientificamente e afirmo: a “Gui” certamente desenvolveu um músculo facial específico, o levator anguli oculi medialis — olhar pidão — com um único propósito: levantar as sobrancelhas e imitar a feição de um bebê humano triste. Guilhermina, com sua inteligência perspicaz e uma teimosia que chega à perfeição, elevou essa biologia evolutiva à categoria de arte.

A “lenda do olhar enganativo” acontece quando a Guilhermina comete um delito — seja roubar uma meia, mastigar um pé de cadeira ou simplesmente exigir um pedaço do seu almoço. Quando confrontada, Gui não recua. Ela senta, abaixa levemente as orelhas longas e foca seus olhos verdes e amendoados diretamente em nossa alma de humanos hipnotizados pelo seu encanto. É um olhar de uma melancolia tão profunda e de uma inocência tão fabricada que os três bobões são instantaneamente acometidos por uma amnésia culposa. Não é história, gente, passamos a questionar se a cadeira não estava mesmo precisando ser mastigada, ou se seria um crime inafiançável negar um petisco a uma criatura que claramente não come há semanas (embora o pote de ração esteja cheio).

Essa manipulação emocional molda toda a relação Guilhermina conosco. Ela não é uma rainha submissa. Veio de terras europeias, criada originalmente para caçar texugos dentro de tocas escuras. Corajosa, territorial e amorosamente independente — nem tanto, não suporta um abandono. Quando a Guilhermina nos lança um “olhar de coitada”, ela não está pedindo desculpas ou implorando piedade. Ela está, na verdade, hackeando nosso sistema emocional.

Apesar dessa pequena tirania doméstica, nossa relação com a Guilhermina é de um amor simbiótico e grudento. A mesma Gui que nos manipula para dormir debaixo das cobertas da cama é aquela que nos segue até o banheiro, protege a casa de intrusos imaginários e vibrará de alegria pura quando a Cintia voltar do trabalho e a Manu chegar da faculdade. Comigo o convívio é mais constante, visto que trabalho em casa.

O olhar enganativo da Guilhermina é, no fundo, a base de um contrato silencioso. Nós fingimos que acreditamos na cara de coitada, e a Gui finge que é apenas um pequeno animal indefeso.

No final das contas, julgamos que temos um pet de estimação, enquanto a Guilhermina tem absoluta certeza de que adotou humanos de estimação incrivelmente bem treinados.

Dias de glamour para uma rainha, no Kennel Clube do Rio Grande do Sul

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