Depois de perder o primeiro turno para Flávio Bolsonaro e sem receber o apoio de outros candidatos, Lula virou o resultado e conquistou um novo mandato. A vitória, maior do que muitos esperavam, encerra uma campanha marcada por uma disputa que seus apoiadores apresentaram como defesa da democracia.
Por um instante, o país pode deixar de lado aquilo que o divide. O Brasil chega a esta eleição profundamente polarizado: há quem peça mudança e há quem reconheça a importância do que foi feito — e do que ainda se tenta fazer. Nesse cenário, Lula venceu. E, se esta foi mesmo sua última eleição, o resultado ganha o peso de um capítulo final escrito à sua maneira: contra as previsões.
A história começa muito antes das urnas. Torneiro mecânico, nordestino, Lula perdeu um dedo em um torno enquanto trabalhava à noite, ainda menor de idade, para ajudar a família a não passar fome. Nada lhe veio fácil. Enfrentou a Ditadura Militar, liderou negociações sindicais difíceis, organizou protestos pelos direitos dos trabalhadores e viu a repressão policial recair sobre as mobilizações. Foi preso. Não desistiu.
Também não desistiu de uma ideia que, durante muito tempo, foi tratada como motivo de escárnio: queria ser presidente da República. Sem grandes recursos, sem o aparato de marqueteiros e visto por setores poderosos como um candidato menor diante das lideranças tradicionais, começou a crescer pela identificação com o povo. Falava a língua dos humildes — e era reconhecido por eles.
Em uma de suas primeiras disputas presidenciais, porém, o Brasil escolheu outro caminho: um jovem promissor, de boa aparência e fala articulada, apresentado como lutador de karatê e piloto de caça, que empolgava o país com o discurso de “caçador de marajás”. Lula perdeu. Mas não se abateu. Sua história de lutas estava apenas começando.
Participou de todas as dez eleições democráticas realizadas depois do fim do regime militar. Aprendeu, mudou e ampliou alianças. Trouxe José Alencar, do PL, como vice; adotou uma nova imagem pública, a do “Lulinha Paz e Amor”. Venceu — e convenceu. Articulou apoio no Congresso, inclusive com o Centrão, para garantir governabilidade. Pagou a dívida externa e tornou o Brasil credor do FMI. Reelegeu-se, elegeu sua sucessora e viu-a ser reeleita.
Depois vieram a prisão e o impeachment de sua sucessora — que seus apoiadores consideram desprovido de base legal. Mesmo encarcerado, Lula era apontado como favorito. Da prisão, viu seu indicado não alcançar o mesmo resultado nas urnas e perder para aquele que se tornaria seu principal algoz.
Então saiu da cadeia e fez, mais uma vez, o que muitos julgavam impossível: derrotou Jair Bolsonaro, mesmo com a máquina do governo nas mãos do adversário.
O mandato seguinte tampouco foi simples. Com maioria oposicionista no Congresso e pautas travadas, Lula chegou ao fim de um governo difícil. Apostou na negociação, nas emendas e na política de boa vizinhança; mais perto do período eleitoral, elevou o tom e levou pautas populares à votação. Para seus apoiadores, os congressistas teriam dificuldade de se indispor com a população às vésperas das eleições. As principais propostas avançaram, embora algumas tenham ficado para o ano seguinte — sem que seus benefícios imediatos pudessem ser colhidos nas urnas.

Ainda assim, o primeiro turno colocou Flávio Bolsonaro à frente. Nenhum dos outros candidatos se alinhou a Lula. O cenário parecia uma corrida decidida. Parecia.
Lula não é um personagem comum da política brasileira. Sua trajetória é marcada por derrotas, retornos e reviravoltas — e por uma capacidade persistente de crescer diante das dificuldades. Nesta campanha, seus apoiadores denunciaram obstáculos à ida de eleitores pobres às urnas, inclusive boicotes atribuídos a empresários do transporte. As pesquisas o apontavam como derrotado. A disputa também foi descrita por sua campanha como um confronto com interesses poderosos: integrantes do PCC revoltados com a Carbono Oculto, milicianos, empresários, donos de casas de apostas, dirigentes do futebol, o grupo ligado a Vorcaro, a maioria do Congresso, a família Bolsonaro, Donald Trump e os proprietários das grandes empresas de tecnologia. São acusações e avaliações políticas que exigem apuração própria; no relato da campanha, formaram parte do cenário enfrentado por Lula.
Do outro lado estavam os jovens, a militância que trabalhou dia e noite para virar votos e eleitores que consideram a assistência social indispensável. Para eles, a disputa não era simplesmente entre esquerda e direita: era entre democracia e bolsonarismo.
E Lula venceu — por uma margem maior do que a esperada.
A oposição, que poderia ter escolhido outros caminhos e candidatos, acabou pagando o preço de suas decisões. Lula chega a um novo mandato como tetracampeão das urnas, carregando a marca de uma trajetória que atravessou derrotas, prisão, rupturas e retornos. A vida no governo não será fácil. Mas, se a história que o trouxe até aqui ensina alguma coisa, é que Lula costuma crescer justamente quando o caminho se fecha.

Por derradeiro , vale destacar a palavra do nosso Prefeito Airton Souza, que é do PL e que reconheceu, de forma democrática, o resultado das urnas, quando referiu:
“A democracia é o pilar da nossa nação e a voz das urnas é soberana. O povo brasileiro demonstrou a força dos nossos valores ao garantir uma grande e expressiva representação da Direita no Senado Federal, o que nos orgulha e fortalece. Da mesma forma, o respeito ao processo democrático exige reconhecermos e respeitarmos a vitória do Presidente Lula.
Agora, as eleições ficaram para trás. Como Prefeito, meu único partido é Canoas. O momento exige união e maturidade política, e é por isso que espero — e trabalharei para — manter a ótima e necessária relação institucional do nosso município com o Governo Federal. Nosso maior desafio hoje não tem cor partidária: a reconstrução da nossa cidade. Precisamos do apoio de Brasília para erguer Canoas novamente, e tenho a convicção de que, com diálogo e parcerias republicanas, devolveremos a dignidade, a segurança e a esperança a todos os canoenses.”








