Por um poeta órfão da Aldeia
Tem gente que prefere o café amargo, sem gota alguma de açúcar, defendendo a pureza do grão. Que me perdoem os incrédulos da poesia, mas eu preciso adoçar o meu. Especialmente hoje, quando o que desce pela garganta é a saudade — e saudade, para não amargar a alma por completo, pede um bocado de doçura.

Acordo sabendo que mudei de hábito não por escolha, mas por um golpe implacável do tempo. Estou órfão. Órfão do aroma de grão moído logo cedo, do tilintar afinado das xícaras no pires, do abraço apertado dos velhos amigos e daqueles bons papos que consertavam o Brasil entre um gole e outro de café. Sentado à mesa, navegando entre o riso leve, o debate inflamado e até as discussões bobas sobre o nada e sobre tudo, o meu dia começava de verdade. Como era bom o meu “cafépolita”.

O meu lugar encantado na Aldeia cerrou suas portas. Perde a cidade, perde o poeta. Encontrar os amigos exige duas coisas fundamentais: gente e ambiente. Hoje, sinto a dor de perder ambos na mesma esquina.
E que esquina!
A geografia do nosso afeto em Canoas sempre teve coordenadas muito precisas. Aquele encontro sagrado da Avenida Victor Barreto com a Fioravante Milanez herdou a mística antiga do velho Calçadão da Tiradentes. Ali, o café nunca foi apenas uma bebida quente num dia frio de inverno gaúcho. Era um altar de memórias.

A história daquela mesa é longa e vem de longe. Impossível pisar ali sem evocar a figura histórica do português Amadeu Mota e o saudoso Café Imperial. Foi ele quem ensinou a cidade a transformar o cafezinho da manhã em comunhão. Quando a pandemia nos atingiu com o silêncio doloroso do decreto de maio de 2020, o mundo parecia ter parado.
Mas em setembro de 2021, o querido amigo Gilberto Manfroi reabriu aquelas portas, devolvendo-nos o direito de sonhar. Lembro como se fosse hoje: sentei-me à mesa, pedi minha tradicional “meiota” de café preto bem-passado e, ao olhar para os cantos da casa renovada e impecável, jurava ver o sorriso generoso do seu Amadeu aprovando a continuidade do ritual. Ali compreendi que certas lendas não morrem: viram prosa, viram verso e sentam-se conosco para tomar um café.

Mais tarde, com a fidalguia e o carinho que lhe são próprios, Gilberto preparou a transição para nos entregar aos novos anfitriões. Fez questão de nos apresentar ao Fábio Alves e à Michelle Nievirsoki, veteranos que carregam nas mãos a sabedoria da nossa terra — desde os tempos de Fábio no vestuário em 1998, passando pela Via Porcello, pelo Amo Café até o aconchego do Que Tal Café na Galeria Martini, na Rua Quize de Janeiro. Gilberto se despedia lembrando que “na vida existem muitas coisas que passam, se transformam e se vão”, mas deixando a missão honrosa de manter aceso o brilho do centro da cidade.
Agora, o comunicado de despedida pregado na parede traz o aperto definitivo no peito:
“O Cosmopolita foi muito mais do que um café e restaurante: foi feito de escolhas diárias, de dedicação, de aprendizados e, principalmente, de vocês…”
E foi mesmo. Foi o abrigo dos sonhadores que pretendiam mudar o mundo, a extensão do nosso lar, o palco dos cafés inesquecíveis, das gargalhadas e dos recomeços.
O Cosmopolita apaga suas luzes e abaixa sua porta de aço na esquina tradicional, mas deixa um rastro inconfundível de gratidão. Sempre haverá outro lugar para onde ir, é verdade, mas o gosto único daquele “cafépolita” fica gravado para sempre na memória do peito.
Ao Cosmopolita, à memória de seu Amadeu, ao Gilberto, ao Fábio, à Michelle e a cada companheiro de mesa que partilhou essa jornada: o meu mais sincero e emocionado obrigado.
A porta se fecha, mas a nossa prosa continua eterna.

Eternizo o instante em preto e branco,
pois só por hoje a vida despertou sob um véu grisé —
onde a luz adormece para deixar falar o sentir.









8 Respostas
Fiz parte desta mesa que onde muito aprendi e revivi momentos de uma Canoas que ficou no passado…..
E a nossa homenagem revitalizada na foto do Amadeu quem herdará.
Se foi o nosso Cosmo Café Polita!!!
Gratidão pelas palavras meu amigo de todas as manhãs, grato pela atenção e pelo carinho que sempre dedicou a nós!
Que notícia triste para Canoas. O centro perde um espaço que trazia tantas lembranças boas e que com certeza vai deixar muita saudade. Todos nós ficamos muito animados quando o Gilberto Manfroi conseguiu resgatar um pouco daquela essência tão querida do antigo café do Amadeu, e ver as portas se fecharem agora é lamentável. Era um ponto tradicional de encontro, para rever amigos e matar saudades. Vai fazer muita falta.
Marco Leite, tinha o prazer de conviver com você neste café. Também fui honrado por DEUS, para reinventar o “COSMOPOLITA”.
O mesmo DEUS, quiz que o Fabio e a Michelle encerrassem a atividade.
É isso, simplesmente isso. Agora é uma história bonita.
Infelizmente o centro de Canoas está cada vez mais abandonado. Mesmo que o centro não tenha sido afetado diretamente pela enchente, Canoas crescer apenas para o lado da BR que não foi atingido pelas águas.
Assim derrepente é uma punhalada…mortal…
Triste dia para os canoenses…
Ficará em minha memória as manhãs com o café cosmopolita. E aquele acervo maravilhoso de fotos e decoração … tristeza…