O INVISÍVEL RALO DO SANEAMENTO | Enquanto o RS desperdiça, como Canoas trata sua água?

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Quase metade de toda a água potável tratada em Canoas se perde antes de chegar às torneiras dos moradores. São vazamentos ocultos nas redes subterrâneas operadas pela Corsan/Aegea.

 

A manchete é de causar indignação, mas, infelizmente, não surpreende quem acompanha as mazelas da infraestrutura nacional: o Rio Grande do Sul joga fora quase 40 de cada cem litros de água potável que produz. O dado, revelado pelo estudo do Instituto Trata Brasil (ITB) em parceria com a consultoria GO Associados, expõe uma ferida aberta no saneamento básico do nosso estado. Enquanto 33 milhões de brasileiros sequer têm acesso à rede de abastecimento, o precioso recurso escorre de forma invisível — e silenciosa — sob o nosso asfalto.

O desperdício gaúcho, estimado em 39,2%, está praticamente alinhado à vergonhosa média nacional de 39,5%. De acordo com os parâmetros de eficiência do Marco Legal do Saneamento e da Portaria 788 do Ministério das Cidades, o índice considerado “aceitável” para perdas na distribuição é de, no máximo, 25%.

Se o Rio Grande do Sul fizesse o dever de casa e atingisse essa meta hoje, a água economizada seria suficiente para abastecer 2,5 milhões de gaúchos por um ano inteiro. Em vez disso, o que vemos são tubulações antigas rompendo, ligações clandestinas e falhas graves de medição que encarecem a tarifa de quem paga a conta em dia. O prejuízo não é apenas ambiental; é social e econômico.

E o nosso cenário local? Como Canoas trata sua água e o desperdício?

Trazer essa discussão para o nível municipal nos ajuda a entender que a crise da água não acontece de forma abstrata: ela passa pelas ruas do nosso próprio bairro. Diante deste panorama alarmante, cabe a pergunta crucial: como Canoas trata sua água e o desperdício?

A resposta local acende um sinal de alerta ainda mais forte do que a média estadual. No mais recente Ranking do Saneamento publicado pelo Instituto Trata Brasil, Canoas ocupa a 69ª posição entre as 100 maiores cidades do país. Um dos indicadores mais preocupantes do município é exatamente o índice de perdas de água na distribuição, que chega a alarmantes 46,6%.

Isso significa que, na prática, quase metade de toda a água potável tratada em Canoas se perde antes de chegar às torneiras dos moradores. São vazamentos ocultos nas redes subterrâneas operadas pela Corsan/Aegea, falta de manutenção preventiva sistemática e falhas comerciais que sabotam o esforço de tratamento. Para piorar o quadro do saneamento local, o município trata apenas 21% do esgoto que gera, expondo a população a riscos de saúde pública e poluição dos mananciais locais.

A boa notícia — e que mostra que há caminhos para a mudança — é que Canoas registrou um aumento expressivo no investimento anual em saneamento por habitante (alcançando cerca de R$ 305,00 por habitante/ano, um dos maiores do estado). O dinheiro está sendo injetado, mas a velocidade das obras e o combate às perdas físicas precisam ser tratados como prioridades absolutas e emergenciais.

O papel do cidadão e do poder público

Não há mais espaço para negligência. O combate ao desperdício de água exige uma força-tarefa em duas frentes. Por um lado, as concessionárias e o poder público, de Canoas precisam agir com eficiência cirúrgica: trocar tubulações obsoletas, setorizar a pressão da rede de água e mapear vazamentos invisíveis com tecnologia de ponta.

Por outro lado, nós, cidadãos, precisamos adotar o consumo consciente como hábito diário e cobrar fiscalização rigorosa sobre as metas do marco regulatório.

A água que se perde no caminho é a dignidade que falta na vida de milhares de pessoas. Até quando continuaremos assistindo, passivamente, ao futuro do nosso estado e da nossa cidade escorrer pelo ralo?

 

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