Vivemos em um país abençoado por um fenômeno sobrenatural que a ciência ainda não conseguiu explicar plenamente: o “surgimento súbito de verbas e asfalto no fim do mandato”. É algo emocionante. De repente, buracos que faziam aniversário nas avenidas desaparecem da noite para o dia. Postos de saúde, antes desolados, ganham pintura nova e equipamentos que pareciam lendas urbanas. O transporte público, por um breve e glorioso momento, parece funcionar sob a batuta de uma eficiência suíça.
Diante de tamanha eficiência concentrada, minha proposta é simples, embora audaciosa: as eleições deveriam ser anuais.
Pense bem. Se o “político de ocasião” é capaz de realizar em seis meses o que negligenciou durante três anos e meio (ou oito anos, no caso dos reeleitos), imagine o progresso que alcançaríamos se ele vivesse sob a constante ameaça da perda do cargo a cada doze meses. Teríamos um canteiro de obras perpétuo, um “choque de gestão” ininterrupto e uma educação tão robusta que as escolas pareceriam centros de excelência da NASA.

Atualmente, o Brasil discute no Senado Federal a PEC 12/2022, que pretende unificar as eleições a partir de 2034, estabelecendo mandatos de cinco anos e o fim da reeleição para o Executivo. A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) já deu o sinal verde em 2025, sob o argumento de reduzir o custo dos pleitos e acabar com a “eleição perpétua”.
Do ponto de vista lógico, a proposta faz sentido: economiza-se bilhões e permite-se que o governante foque na gestão em vez da campanha. Mas, do ponto de vista do cidadão que só vê a cor do dinheiro público quando o candidato precisa do seu voto, a unificação parece um jejum perigoso. Se hoje, com eleições a cada dois anos (alternando municipais e gerais), já é difícil manter o político acordado, imagine dar a ele cinco anos de sono profundo para que ele só desperte nos últimos meses do mandato?
A transição prevista — com prefeitos em 2028 podendo ter mandatos de seis anos para ajustar o calendário — soa como uma hibernação prolongada para a zeladoria urbana.
O problema não é a frequência das eleições, mas a memória curta e a conveniência do mandato. O político que se sente ameaçado é, curiosamente, o político que mais trabalha. Portanto, enquanto o Senado tenta nos convencer de que votar menos é a solução para a gestão pública, eu sigo sonhando com o dia em que cada 1º de janeiro será precedido por uma urna.
Se é só sob pressão e medo de perder a boquinha que a saúde, a segurança e o transporte funcionam, que vivamos em estado de campanha permanente. No Brasil, infelizmente, o bem-estar social parece ser um subproduto do desespero eleitoral.
Se o mandato é longo demais, a preguiça se instala; se é curto, o asfalto aparece.
Que venham, então, as eleições anuais — ou, quem sabe, mensais — para ver se este país finalmente sai do papel.







