A tragédia que assolou o Rio Grande do Sul em maio de 2024 deixou marcas profundas e feridas que ainda estão longe de cicatrizar. Na Região Metropolitana de Porto Alegre, o município de Canoas tornou-se o retrato mais dramático do colapso: com mais de 50% de sua área urbana submersa, milhares de famílias viram suas vidas reviradas pela força das águas. Diante desse cenário de reconstrução e busca por respostas, a notícia de que, após 20 anos de batalhas judiciais, a mineração de areia voltará a ser permitida em 4% do Lago Guaíba surge como um marco.
Oficialmente, o governo do Estado apressa-se em declarar que a portaria assinada recentemente “não possui relação com a enchente”. Sob a ótica estritamente técnica e burocrática dos estudos da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), pode parecer verdade: a mineração em si não foi modelada para reduzir a régua do Guaíba. No entanto, sob a ótica da gestão de bacias hidrográficas, da prevenção de desastres e da economia circular, essa decisão tardia tem tudo a ver com o que aconteceu em 2024.
O sufocamento das nossas artérias hídricas
Para entender a gravidade da situação, é preciso olhar para o fundo do leito. O Guaíba funciona como um gargalo natural de uma bacia gigantesca que recebe águas dos rios Jacuí, Caí, Sinos e Gravataí. Ao longo das últimas duas décadas, enquanto a extração de areia esteve judicialmente travada e a dragagem sistemática dos canais de navegação permaneceu em segundo plano por falta de verbas públicas, ocorreu um processo silencioso e devastador: o assoreamento.
Toneladas de sedimentos acumularam-se no fundo do lago e de seus afluentes. Na prática, o Guaíba perdeu profundidade, diminuindo sua capacidade de vazão rápida. Quando a precipitação histórica de 2024 despejou volumes inéditos sobre o Estado, a água encontrou caminhos obstruídos. Sem conseguir escoar com agilidade em direção à Lagoa dos Patos, o sistema represou. O refluxo atingiu diretamente os rios Gravataí e Sinos, cujos diques e sistemas de contenção em Canoas e arredores não resistiram, transformando bairros inteiros em lagos artificiais.
A liberação da lavra em cerca de 2.051 hectares (o equivalente a 2.872 campos de futebol) e, principalmente, a autorização para que a iniciativa privada explore comercialmente a areia retirada das dragagens dos canais de navegação representam uma mudança de paradigma essencial, ainda que dolorosamente atrasada.

Desonerar o Estado para salvar as cidades
A grande inovação da nova portaria reside na sinergia entre o interesse privado e a necessidade pública. O sistema hidroviário gaúcho possui cerca de 286 quilômetros de extensão. Manter essa malha navegável e desimpedida exige um investimento milionário em dragagem que o Estado, historicamente estrangulado por crises fiscais, nunca conseguiu arcar com a frequência necessária.
Ao permitir que empresas privadas realizem a dragagem dos canais de navegação e comercializem o mineral retirado, o governo estadual cria um modelo autossustentável de manutenção hídrica. Retirar esse sedimento de circulação e destiná-lo à construção civil, em vez de devolvê-lo ao próprio curso hídrico (como ocorria em dragagens passadas), é uma medida óbvia de engenharia e sustentabilidade que deveria estar em prática há anos.
Embora o governador Eduardo Leite defenda que a dragagem “não se estabelece na perspectiva de reduzir o nível do Guaíba”, a física elementar nos diz que manter canais desimpedidos e leitos limpos facilita o fluxo hidrodinâmico. Em momentos de cheia extrema, cada centímetro de profundidade recuperado e cada obstáculo removido do fluxo d’água representam horas a mais para evacuar populações ribeirinhas e menor pressão sobre os diques de contenção de Canoas, Porto Alegre e São Leopoldo.
Rigor ambiental sem paralisia
É evidente que a extração de recursos minerais em um ecossistema sensível como o Guaíba exige cautela. O debate que se arrastou por duas décadas focou, com razão, nos riscos de contaminação da água por metais pesados depositados no lodo profundo e na proteção da fauna aquática. O zoneamento ambiental que restringe a atividade a apenas 4 % da área do lago, mantendo as margens e áreas de captação de água potável estritamente protegidas, demonstra que é possível conciliar desenvolvimento, segurança mineral e conservação.
O que o Rio Grande do Sul não pode mais tolerar é que o preciosismo burocrático e a judicialização extrema resultem em paralisia sistêmica. As enchentes de 2024 provaram que a inação também tem um custo ambiental, social e humano imensurável.
A retomada da mineração de areia e o início das dragagens comerciais no Guaíba não vão, por si sós, impedir que novas chuvas fortes ocorram. No entanto, representam o resgate de uma ferramenta essencial de manejo ambiental e infraestrutura que nunca deveria ter sido abandonada. Chega 20 anos atrasada, mas chega em um momento em que Canoas e todo o Rio Grande do Sul precisam aprender, urgentemente, a conviver de forma mais inteligente e prevenida com as suas águas.








