Há algo de profundamente poético na forma como a memória se recusa a aceitar os rótulos de gaveta. Olhando para o livro CANOAS anatomia de uma CIDADE II, de Antonio Jesus Pfeil, preservado na história de Canoas, vejo a figura do velho Otto Müller — ou simplesmente “Vovô” —, caminhando a passos lentos, mas firmes, pelas calçadas que viram a cidade nascer e se desdobrar.
Para os apressados que cruzavam a Avenida João Pessoa nos crepúsculos de meados do século passado, talvez o “Vovô” não passasse de uma figura contida em trapos, um farrapo humano esquecido à margem do progresso rápido. Mas a crônica do tempo desmente as aparências com uma doçura irrefutável: debaixo daquela cabeleira de neve e do nariz roliço sobram a sabedoria dos velhos mestres e o brilho intacto dos olhos de garoto.
A questão que aquele texto de 1955 nos coloca na mesa, com tanta delicadeza quanto força, é o abismo entre o parecer e o ser. Num mundo no qual os homens já olhavam para o céu ansiando alcançar a Lua com “foguetes a jato”, disputando a passos largos essa “competição odiosa” do dia a dia, Otto Müller escolhera outra linguagem. Descobrira, na aposentadoria das profissões e dos egos, a arte sutil de “beber o sol” de manhã e guardar o vinho para a tarde.

O Mestre e a molecada
A cena do velho mestre-escola, ameaçando com o bastão as canelas dos garotos que dele debochavam para logo depois se enternecer com um sorriso de perdão, é o puro retrato da convivência humana em sua forma mais autêntica.
O Idioma do Coração
Ali, onde a cidade parecia virar uma pequena Babel, Otto não precisava de grandes discursos. Bastava sua barba de profeta ao vento para lembrar a todos que a vida também se faz de silêncios, amizades e partidas de xadrez à luz de lâmpadas rodeadas de insetos.
No fim das contas, a passagem sobre o “Vovô” de Canoas nos faz olhar no espelho do tempo. Vivemos correndo, preocupados com o rótulo do frasco, sem reparar no conteúdo precioso que guarda. Otto Müller não era um homem decaído; era um aposentado das vaidades. Um lembrete ambulante de que, às vezes, os únicos profetas capazes de nos salvar são aqueles “santos de casa” que caminham calados pelas nossas próprias ruas, oferecendo um aceno de afeto a quem se dispuser a parar e olhar os invisíveis da Aldeia Canoas.

UM PEDAÇO DE NOSSA HISTÓRIA
Distante das “altas rodas”, a figura do Vovô se movia tranquila pela cidade:
OTTO MÜLLER. Novamente, o nome é como um rótulo descolorido sobre o vinho raro. Agora, mais ainda. Quem vê aquela figura, contida em andrajos, talvez suponha decadência. Não se apercebe da magnitude do porte, limitada entre a cabeleira alva e os pés cansados. Porém, quanta altivez naquela fronte sulcada! Depois, a fisionomia se estende por um nariz roliço e por uma boca de traço forte, acostumada às palavras justas e sábias. E tudo isso iluminado por uns olhos claros e vivazes, como os de um garoto. Tudo isso emoldurado pela cabeleira e pela barba de profeta, neste mundo ansioso por visões de libertação.
Nunca um nome foi tão incapaz de expressar a condição de quem o possui. Justamente por isso, todos chamam Otto Müller de “Vovô”, numa tentativa de encontrar uma designação mais própria. Aos crepúsculos, quando o sol rola pela Av. João Pessoa e vai deitar atrás da Vila Harmonia, ele corresponde ao nosso afeto, dizendo olá, a sacudir a barba respeitável. Fica, assim, perfeitamente realizada essa troca de amistosidades, essa concretização de sentimentos puros e harmoniosos.
Nada sabemos do seu passado, a não ser que nasceu a 12 de março de 1869, em Santa Maria da Boca do Monte, e que foi professor por 20 anos e arquivista durante 10. Poderão pensar, os que não conhecem a sua exuberância, ser o “Vovô” um homem decaído, em derrocada física e espiritual. Nunca! Está apenas aposentado, o “Vovô”. Aposentado das profissões e, principalmente, desta competição odiosa, que é a vida. Agora, ele somente observa esta Babel, onde os homens buscam se entender em muitas línguas, inutilmente. Observando, ele poderia sorrir, ele, que encontrou a linguagem ideal, o idioma do coração.
O mundo já deu muitas voltas, as estrelas brilharam entre nuvens renovadas, e os homens, não satisfeitos em apenas cantar a lua em poemas, já a querem profanar com os foguetes a jato. Mas não esquecemos aquela noite, sob o caramanchão do bilhar do velho Emilio. O tabuleiro de xadrez, à luz da lâmpada cercada de insetos, tinha reflexos de ladrilho lavado. O “Vovô”, com os olhos semicerrados pelo vinho, tocou numa peça e perguntou: É rei? Respondemos afirmativamente, e ele concluiu: Então não errei!
Por uns tempos, ele andou afastado, morando em Vila Niterói. Imaginamos a sua figura imponente passeando pelas ruas tristes, a barba de neve desenhando no chão uma sombra escura e delicada. Imaginamos a impressão sentida pelo povo daquela zona, ante a aparição assim, de quase irrealidade. Agora, ele está conosco, de novo. Vive ali no Domingos. De manhã, ele sai a beber o sol, que o vinho fica para mais tarde. Os garotos correm, gritando deboches. Então, parece reviver nele toda a severidade do seu tempo de mestre-escola: aplica o bastão nas canelas da garotada, encolerizado. Mas, se os garotos reconhecem a sua autoridade, ele se enternece e sorri, perdoando.
Otto Müller. Jamais um nome foi tão inexpressivo, assim como os rótulos sobre os preciosos frascos. Pois, a pessoa que o possui exprime tantas coisas! O “Vovô” é assim como um santo de casa que faz milagres, é assim como um profeta de barbas longas, anunciando que a renúncia pode nos salvar. “








