OPINIÃO | O novo valor do metro quadrado e a realidade de Canoas: um chamado ao debate

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Um recente artigo publicado na Revista Exame trouxe à tona uma mudança de paradigma no setor construtivo: a avaliação de um imóvel não se resume mais a metragem, número de dormitórios ou acabamento. A nova moeda de troca do mercado chama-se acesso e tempo. Segundo a publicação, a localização deixou de ser apenas um endereço para se tornar um facilitador da rotina. Em suma, o valor de um empreendimento está cada vez mais atrelado ao ecossistema ao seu redor e à relação que ele estabelece com a cidade.

Essa tese, irretocável do ponto de vista do urbanismo moderno, encontra um choque de realidade imediato ao ser transposta para o cenário de Canoas. Se nos grandes centros urbanos a “boa localização” é sinônimo de proximidade com o transporte, o comércio e o trabalho, aqui a régua mudou drasticamente. Após a enchente histórica de 2024, a boa localização tornou-se, antes de qualquer coisa, uma questão de topografia e segurança. A conveniência esbarrou na cota de inundação.

Diante de um cenário em que metade do município foi atingida pelas águas, o mapa de valor da cidade foi reescrito à força. É preciso, portanto, instigar o debate e fazer as perguntas difíceis: como o mercado canoense está processando e tratando essa transformação estrutural?

Quem ganhou e quem perdeu nesse reordenamento forçado?

O que se viu na prática foi que áreas historicamente valorizadas sofreram com o estigma, o medo e a desvalorização iminente, enquanto regiões mais altas, antes consideradas de menor apelo comercial, enfrentaram uma inflação repentina. O mercado atuou como um agente facilitador da reconstrução ou apenas precificou o desespero do êxodo interno em busca de terrenos secos?

A evolução do setor, citada pela Exame, traz uma responsabilidade inerente às empresas. Conceber um projeto imobiliário hoje significa entender como ele se conecta à vitalidade e à resiliência urbana. É exatamente neste ponto que a discussão precisa chegar à mesa da ASSOCI — Associação do Mercado Imobiliário de Canoas, Esteio, Sapucaia do Sul e Nova Santa Rita, da SEACA — Associação de Engenharia e Arquitetura de Canoas e Sinduscon — Sindicato da Indústria da Construção Civil.

O artigo nacional acerta ao destacar que o incorporador tem um papel fundamental e precisa ser ouvido nas discussões sobre zoneamento, legislação e desenvolvimento urbano. Sendo assim, como representante máxima do motor que constrói a região, quais são as diretrizes que as entidades citadas pretendem pautar para o futuro de Canoas?

Como a classe imobiliária, munida de dados e conhecimento de mercado, vai atuar junto ao poder público para exigir obras definitivas de proteção, garantindo que os ativos da cidade não voltem a ser vitimados?

A responsabilidade sobre o desenvolvimento urbano ultrapassa os muros de cada lote. O “novo normal” da publicidade imobiliária local não pode se limitar a ostentar o selo de “área que não alaga” como um mero argumento de venda ou justificativa para preços exorbitantes. É preciso inteligência para repensar o plano diretor e a ocupação do solo de forma sistêmica.

Os metros quadrados continuarão tendo valor. No entanto, o verdadeiro valor de um imóvel em Canoas, a partir de agora, estará na capacidade do setor de ajudar a reerguer uma cidade mais segura, bem planejada e preparada para o futuro. A provocação está feita, e a cidade aguarda o posicionamento daqueles que a constroem.

LEIA O ARTIGO QUE INSTIGOU O ASSUNTO

https://exame.com/insight/o-novo-valor-de-um-imovel-esta-alem-dos-metros-quadrados/p

 

 

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