PICOTANDO A POLÍTICA | Café quente, areia movediça e a cegueira que alaga

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É incrível a capacidade que alguns têm nas redes sociais de tentar desqualificar o trabalho alheio. Bastou não rezar pela cartilha “deste ou daquele” para o veredicto surgir rápido como um raio: “É texto de Inteligência Artificial!”. Sabe de nada o inocente! Mas, no fundo, a gente agradece pela audiência e pelo prestígio da crítica, mesmo que ela passe longe da realidade. Seguimos em frente, afinal, atrás vem gente.

Não acordamos todos os dias na calada da madrugada para agradar a gregos e troianos. Nosso intuito aqui é um só: informar com aquela pitada de ironia que a política local e os bastidores da região metropolitana exigem. Nestas madrugadas frias, nosso negócio é “esquentar” a notícia e servi-la como um café bem passado: amargo para uns, doce para outros.

E, por falar em café amargo, o Picotando a Política de hoje traz um prato cheio de discussões que parecem não sair do lugar enquanto a água bate no pescoço.

O Cabo de Guerra no Guaíba: enquanto eles discutem, o tempo corre

A novela sobre a retirada de areia no Guaíba ganhou mais um capítulo daqueles que mostram como a burocracia adora andar em círculos. A justiça decidiu manter suspensa a concessão de licenças ambientais para a mineração no lago até que uma perícia minuciosa analise se as regras do jogo foram de fato cumpridas. De um lado, órgãos de fiscalização e ambientalistas acionam os freios de emergência; do outro, setores econômicos e governamentais tentam acelerar um processo que já arrasta uma história de décadas.

O grande problema é que, no meio desse tiroteio jurídico e político, o tempo urge — e o céu não costuma esperar o trânsito em julgado.

Há quem defenda com unhas e dentes que cavar o fundo do Guaíba e retirar milhões de metros cúbicos de areia seria a salvação da lavoura para evitar novas cheias na capital e na região metropolitana. Porém, estudos — daqueles que analisam a dinâmica das águas e não a conveniência de discursos — apontam que toda essa movimentação de terra seria como tentar secar o oceano com um balde furado. Em uma grande cheia, a força do fluxo que deságua no Guaíba preencheria qualquer buraco aberto pela mineração em questão de escassos minutos.

Ou seja: focar a prevenção de enchentes apenas na mineração é tentar tapar o sol com a peneira.

Mas a grande ironia — e o tempero amargo desse café — é outra.

Cegos por opção

Enquanto ambientalistas defendem suas teses protetivas, políticos articulam discursos de palanque, juristas debruçam-se sobre calhamaços de papel e governantes tentam equilibrar pratos que já estão quebrados, a realidade climática bate à porta de forma implacável.

O tempo das picuinhas e das discussões teóricas já passou. O El Niño e outros fenômenos extremos estão chegando com força total, anunciando que o clima mudou e as respostas rápidas não podem ficar reféns de vaidades institucionais. Há uma cegueira coletiva de quem prefere brigar pelo controle da narrativa em vez de agir de forma estrutural para proteger as cidades da região metropolitana e Porto Alegre.

Insistem em não enxergar que a discussão não deveria ser sobre “quem ganha a queda de braço”, mas sim sobre como preparar nossas cidades para o que está por vir. O debate sobre a areia virou uma cortina de fumaça conveniente para mascarar a falta de obras reais de contenção, de planejamento urbano sério e de proteção às populações vulneráveis.

Enquanto as autoridades se perdem em prazos de perícias e manifestações judiciais, o povo da região metropolitana olha para o céu toda vez que o vento sopra mais forte.

O café está servido. Quem vai querer adoçar?

2 Respostas

  1. Jornalista Marco Leite, vc foi cirurgico. São diversas ações que estão esperando, uma isolada, certamente não resolve o problema como um todo, mas todas ações devem ser e executadas com a máxima urgência, aliás, URGÊNCIQ é uma palavra que o executivo, judiciário e legislativo não conhecem. Dragar, dique de contenção e bombas, são algumas da providências imediatas e com um planejamento urbano de longo prazo, vamos encontrar outras soluções.

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