O circo eleitoral em Canoas armou finalmente a sua lona, e o perfume de fumaça de santinho misturado com o café passado dos comitês já começa a tomar as esquinas. A caça ao voto abriu a temporada!
De um lado, a burguesia partidária — os abastados de sempre — já ostenta faixas verticais reluzentes e comitês suntuosos em pontos estratégicos da cidade. Do outro, os desprovidos de verba recorrem ao único recurso gratuito que restou: a criatividade desesperada nas redes sociais, tentando transformar três curtidas e um comentário da tia em capital político.
E como esquecer daquela velha figura carimbada? O político “generoso” que enche o peito para dizer: “Eu não sou candidato, mas… o fulano é!”. Uma manobra de puro altruísmo — contém ironia, por favor — projetada para importador forasteiro vir aqui roubar o voto dos nossos inocentes eleitores aldeenses e desaparecer logo após a apuração. Particularmente, continuo fincando pé: eleitor de Canoas deveria votar em quem pisou no mesmo barro que ele.
Mas vamos aos números, porque a matemática eleitoral é cruel. Temos uma lista inflada de 35 candidatos para um eleitorado de aproximadamente 250 mil pessoas. Faça as contas: se a população resolvesse ser democrática e dividisse os votos igualmente, cada aspirante levaria cerca de 7 mil votos para casa. O resultado? Não elegeríamos absolutamente ninguém. A verdade nua e crua é que Canoas só coloca representantes na Câmara Federal se buscar votos lá fora; caso contrário, nossos líderes estariam em casa vendo a sessão da tarde.
Sejamos realistas e sem melindres: a grande maioria desses 35 nomes está ali única e exclusivamente para encher linguiça. São bucha de canhão. No tabuleiro partidário, esses candidatos são exatamente o que Magneto profetizou no filme X-Men: “Os peões vão primeiro”.
A frase é cirúrgica. No xadrez da nossa política local, engole-se o peão em nome do tal “quociente eleitoral” — essa engrenagem diabólica criada para triturar os fracos e servir de degrau para manter bispos, reis e rainhas confortáveis em seus tronos. O restante da chapa (cavalos, torres e peões iludidos) trabalha de graça para sustentar o banquete dos mesmos de sempre.
E se, por um milagre dos deuses da urna, algum azarão furar a bolha e se eleger?
Ah, meu amigo… em quatro anos a metamorfose se completa. O elemento surpresa é devidamente mastigado e assimilado pela máquina, transformando-se em mais um senhor feudal administrando verbas para perpetuar a própria espécie. É o triunfo da mesmice.
Quem tiver juízo que aperte os cintos, porque o jogo dos tronos canoense só está começando.
LISTA DOS CANDIDATOS DE CANOAS
| Candidato(a) | Cargo Pretendido | Partido |
| Alexandre Gonçalves | Deputado Estadual | PDT |
| Alini Artioli | Deputada Federal | Novo |
| Ana Cláudia | Deputada Federal | União Brasil |
| Camila Nunes | Deputada Estadual | PL |
| Carlos Gomes | Deputado Federal | Republicanos |
| Cassio Silveira | Deputado Estadual | Republicanos |
| Cezar Mossini | Deputado Federal | Republicanos |
| Cris Ferreira | Deputado Federal | Missão |
| Cris Moraes | Deputado Federal | PV |
| Eric Douglas | Deputado Estadual | União Brasil |
| Franciane Bayer | Deputada Federal | Republicanos |
| Gabriel Gonçalves | Deputado Federal | MDB |
| Graziela Mauer | Deputada Estadual | Republicanos |
| Iverá | Deputada Estadual | PSOL |
| Jurandir Maciel | Deputado Federal | Republicanos |
| Larissa Rodrigues | Deputada Estadual | PL |
| Luis Afonso | Deputado Estadual | PSDB |
| Luiz Carlos Busato | Deputado Federal | União Brasil |
| Márcio Freitas | Deputado Estadual | MDB |
| Maria Eunice | Deputada Estadual | PT |
| Naligia Raquel | Deputada Federal | PSD |
| Neuza Ruffato | Deputada Estadual | PSD |
| Nilce Bregalda Schneider | Deputada Estadual | PL |
| Odirlei Campiol | Deputado Federal | Republicanos |
| Pr. Moisés | Deputado Estadual | Republicanos |
| Pr. Oseas | Deputado Estadual | Republicanos |
| Raquel Alves (de Iansã) | Deputada Estadual | PSB |
| Rodrigo Cebola | Deputado Federal | PSOL |
| Rodrigo D’Ávila | Deputado Estadual | Novo |
| Silvia Helena | Deputada Federal | Podemos |
| Simone Sabin | Deputada Federal | Avante |
| Thiago Costa | Deputado Estadual | Cidadania |
| Vinícius Conejo | Deputado Estadual | Podemos |
ALÉM DO XADREZ POLÍTICO: O que prometem os candidatos ao Governo do RS para o meio ambiente e a prevenção de cheias
Enquanto as articulações e o “xadrez político” tomam conta dos bastidores da disputa ao Palácio Piratini, a realidade climática impõe uma cobrança inadiável ao Rio Grande do Sul. Na primeira eleição para o governo gaúcho após a catastrófica tragédia climática de 2024, a população e o debate público voltam-se para os planos de governo com uma pergunta central: as propostas apresentadas são capazes de evitar novas tragédias anunciadas?
Os quatro candidatos mais bem colocados nas pesquisas — Gabriel Souza (MDB), Juliana Brizola (PDT), Luciano Zucco (PL) e Marcelo Maranata (PSDB) — dedicam páginas expressivas de suas diretrizes a ações ambientais, divididas entre a prevenção/resposta a eventos extremos e políticas de longo prazo (transição energética, saneamento e conservação).
Abaixo, analisamos os principais pontos e prioridades apresentados em cada plano de governo.
GABRIEL SOUZA (MDB): modernização tecnológica e gestão climática institucional
O plano de Gabriel Souza foca fortemente na digitalização, na consolidação de planos climáticos estaduais já existentes e na descentralização da gestão dos recursos hídricos.
- Tecnologia e Licenciamento: Propõe a criação de uma plataforma pública digital com dados georreferenciados para consulta prévia de viabilidade ambiental e a implementação do Sistema de Outorga Inteligente RS.
- Governança Climática: Defende a regulamentação do Plano de Ação Climática Estadual (PLAC-RS) e a consolidação do programa ProClima 2050 como norteadores de políticas públicas.
- Prevenção e Alerta: Propõe modernizar e expandir a rede de monitoramento, previsão e comunicação de risco para antecipação de desastres, além de estruturar de forma permanente e regionalizada a Proteção e Defesa Civil.
- Financiamento: Sugere criar instrumentos específicos de financiamento para adaptação climática, segurança hídrica e fortalecimento das prefeituras.
JULIANA BRIZOLA (PDT): transição energética justa, fortalecimento técnico e justiça social
Juliana Brizola apoia seu plano na recomposição do funcionalismo público ambiental, no saneamento para áreas vulneráveis e no incentivo a energias limpas com foco em transição justa.
- Fortalecimento Institucional: Destaca a necessidade urgente de recompor os quadros técnicos da SEMA (Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura) e da FEPAM, além de fortalecer as Unidades de Conservação e o Batalhão Ambiental da Brigada Militar.
- Energia e Transição Justa: Propõe o Plano Estadual de Energia e Transição Energética Justa 2027-2035, estimulando cadeias de biometano, biodiesel e etanol, buscando alternativas de desenvolvimento para regiões historicamente dependentes do carvão.
- Segurança Hídrica e Saneamento: Promete cumprir metas de universalização do saneamento, priorizando periferias e áreas rurais. Enfatiza a proteção de nascentes e matas ciliares via Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) a produtores rurais.
- Gestão de Bacias: Propõe o fortalecimento dos Comitês de Bacia Hidrográfica e a realização de obras estruturantes de reservação de água.
LUCIANO ZUCCO (PL): infraestrutura de defesa civil, monitoramento geotécnico e matriz diversificada
O plano de Luciano Zucco prioriza a engenharia de prevenção de riscos, o monitoramento por sensores/radares e a consolidação de fontes energéticas diversificadas.
- Defesa Civil e Assistência aos Municípios: Propõe a criação de um programa permanente de capacitação, assistência técnica e cofinanciamento para estruturas municipais, priorizando territórios de alto risco.
- Tecnologia de Monitoramento: Enfatiza a conclusão, integração e manutenção de radares, estações hidrológicas, meteorológicas e sensores geotécnicos, além da atualização contínua de mapas de risco (inundação, deslizamento, enxurrada e estiagem).
- Obras Estruturantes: Prevê a definição de uma carteira estadual de obras prioritárias voltadas à contenção, amortecimento de cheias, drenagem e estabilização de encostas.
- Matriz Energética: Defende a diversificação da matriz com foco em renováveis, biogás, biometano e hidrogênio, mantendo também o fomento à pesquisa e investimentos em novas tecnologias e usos econômicos do carvão.
MARCELO MARANATA (PSDB): foco na região metropolitana, reconstrução de diques e padrões resilientes
Marcelo Maranata direciona parte expressiva de seu plano para a proteção da Região Metropolitana de Porto Alegre e a readequação da infraestrutura existente.
- Prioridade Metropolitana: Trata a proteção contra cheias no eixo metropolitano como prioridade absoluta, propondo a atualização imediata dos estudos das cinco principais bacias da região.
- Recuperação de Infraestrutura Física: Promete a recuperação e manutenção de diques, comportas, casas de bombas, canais e sistemas urbanos de drenagem.
- Resiliência e Fundos: Propõe criar padrões construtivos resilientes para edificações públicas (escolas, hospitais e habitação), além de estruturar um fundo permanente de prevenção e resposta com planos de contingência regionais e simulados.
- Sustentabilidade e Licenciamento: Preconiza a modernização do licenciamento ambiental com análise de risco, a recuperação de matas ciliares e a criação de um programa estadual de economia circular e reciclagem inclusiva.
Quadro Comparativo
| Candidato | Foco Principal | Destaque em Prevenção / Cheias | Destaque em Meio Ambiente / Energia |
| Gabriel Souza (MDB) | Governança digital e articulação institucional | Alertas integrados, PLAC-RS e outorga inteligente | ProClima 2050 e descentralização hídrica |
| Juliana Brizola (PDT) | Serviço público técnico e transição justa | Proteção de nascentes e obras em bacias hidrográficas | Recomposição Fepam/Sema e Pagamento por Serviços Ambientais |
| Luciano Zucco (PL) | Sensores, Defesa Civil e infraestrutura de contenção | Radares, sensores geotécnicos e carteira de obras | Biogás, biometano e pesquisa tecnológica do carvão |
| Marcelo Maranata (PSDB) | Infraestrutura metropolitana e engenharia resiliente | Recuperação de diques, comportas, casas de bombas e fundo permanente | Padrões resilientes em obras e economia circular |
Da promessa no papel à mudança real
Embora os quatro candidatos apresentem diagnósticos e soluções alinhados às necessidades técnicas do Estado — alternando entre a visão preventiva digital, a reconstrução da infraestrutura física e a valorização das equipes técnicas —, o maior desafio do próximo governo não será a redação dos planos, mas a execução orçamentária e a priorização política.
Após décadas em que alertas técnicos foram secundarizados pelo debate eleitoral imediato, a sociedade gaúcha exige que as propostas para o meio ambiente e o combate às cheias deixem de ser peças de propaganda e se tornem políticas públicas contínuas, imunes à volatilidade do jogo político.







