A HISTÓRIA NÃO CONTADA DO GUAJUVIRAS | Das mãos do pioneirismo ao controle do Estado

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Por entre o sonho de um megaprojeto privado, a desapropriação governamental dos anos 1970 e a maior ocupação urbana do Estado, revelam-se os bastidores do surgimento de um dos maiores núcleos habitacionais do Rio Grande do Sul.

Quem caminha hoje pelas ruas movimentadas do Bairro Guajuviras, em Canoas, depara-se com uma comunidade pulsante de dezenas de milhares de moradores, comércio efervescente e uma identidade comunitária forjada na luta urbana. O que poucos conhecem, no entanto, é o enredo de bastidores que envolveu impérios industriais, a ambição de um dos maiores visionários do setor imobiliário gaúcho, a intervenção autoritária do Regime Militar e a trágica ironia de um projeto privado que acabou confiscado e posteriormente abandonado pelo poder público.

AS RAÍZES DA TERRA | A Fazenda dos Renner

Para compreender a dimensão da história, é preciso voltar no tempo até meados do século XX. A área descrita — uma gleba contínua e imponente de aproximadamente 1.000 hectares que se estendia até a região do Nazário — constituía a Fazenda Guajuviras. A propriedade pertencia originalmente a Antônio Jacob Renner (A. J. Renner), patriarca do império fabril e comercial que marcou a industrialização do Rio Grande do Sul.

Após o falecimento de A. J. Renner, o processo sucessório manteve a vasta área sob o domínio dos herdeiros da família, que residiam e mantinham seus negócios concentrados na capital gaúcha, Porto Alegre — especialmente nas imediações do histórico reduto familiar entre a Avenida Carlos Gomes e a Avenida do Forte. Durante anos, a terra permaneceu como uma vasta gleba rural às margens do crescimento de Porto Alegre e Canoas.

A visão de Johannes Engel e a era BNH

Na virada da década de 1960 para a de 1970, o Brasil experimentava as transformações do “Milagre Econômico” sob o Regime Militar. Com a criação do Banco Nacional da Habitação (BNH) em 1964, abriu-se um canal inédito de financiamento para tentar estancar o déficit habitacional das capitais brasileiras.

Johannes Engel

Foi nesse cenário de efervescência urbanística que entrou em cena Johannes Engel, empresário visionário, figura central do desenvolvimento imobiliário da Região Metropolitana e futuro presidente da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Canoas (CICS).

Engel enxergou na Fazenda Guajuviras a oportunidade perfeita para construir algo jamais visto no Rio Grande do Sul: um megaprojeto habitacional planejado, capaz de abrigar milhares de famílias com infraestrutura completa. Johannes negociou diretamente com os herdeiros de A. J. Renner a compra de toda a área da fazenda para viabilizar a iniciativa.

Tratando-se de um empreendimento de escala monumental, as diretrizes urbanísticas e o modelo econômico exigiram trâmites complexos. Johannes Engel e sua equipe elaboraram o plano detalhado, submetendo os projetos arquitetônicos, ambientais e de engenharia às instâncias estaduais e federais em Brasília, buscando o aporte financeiro junto ao sistema BNH.

A RASTEIRA ESTATAL | A Desapropriação no Governo Triches

Enquanto o projeto tramitava nas altas esferas governamentais, a conjuntura política mudava. Em 1973, foi institucionalizada a Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA), trazendo para o Palácio Piratini a necessidade urgente de controlar o planejamento urbano das cidades do entorno da capital.

Sob o governo de Euclides Triches (1971–1975) — engenheiro militar e político indicado pelo governo federal para governar o Estado —, a máquina pública olhou com apetite para o projeto inovador desenhado pela iniciativa privada na Fazenda Guajuviras.

Em vez de apoiar e financiar o empreendimento do idealizador privado, o Governo do Estado tomou uma medida drástica: declarou a Fazenda Guajuviras de utilidade pública para fins de desapropriação. O plano privado concebido por Johannes Engel foi sumariamente expropriado pelo Estado. A família Engel recebeu um valor irrisório pelas terras — uma indenização simbólica que esteve longe de cobrir o investimento, o planejamento e o valor real do imóvel.

A área foi repassada à Companhia de Habitação do Estado do Rio Grande do Sul (COHAB-RS) para a execução do rebatizado Conjunto Habitacional Guajuviras (oficialmente nomeado no papel como Conjunto Habitacional Ildo Meneghetti), redimensionado para mais de 6.000 unidades habitacionais.

(Nota histórica: Após concluir o mandato em 1975, o ex-governador Euclides Triches migrou para a gestão de grandes estatais e mineradoras, presidindo a Amazônia Mineração S/A – AMZA na exploração das jazidas de minério de ferro de Carajás).

O ABANDONO ESTATAL | E a histórica ocupação de 1989

O desenrolar das décadas seguintes provou a incapacidade da gestão estatal de levar a cabo com eficiência a ideia que havia usurpado da iniciativa privada.

Nos anos 1980, com a derrocada do BNH (extinto em 1986) e a profunda crise financeira que atingiu a COHAB e as construtoras contratadas, o canteiro de obras do Guajuviras foi abandonado. O local transformou-se em um cenário fantasma: milhares de esqueletos de prédios pela metade, casas sem teto, ruas abertas sem pavimentação e uma infraestrutura que se deteriorava ao relento.

A inércia do Estado culminou no dia 17 de abril de 1989. Em uma ação orquestrada por movimentos sociais de luta pela moradia, cerca de 24 mil pessoas ocuparam simultaneamente as estruturas abandonadas da COHAB. Foi a maior ocupação urbana da história do Rio Grande do Sul e uma das maiores de toda a América Latina.

A partir da ocupação, seguiram-se anos de duras negociações, resistência popular, lutas por saneamento, luz e pavimentação. A consolidação definitiva da área viria décadas mais tarde: em 2003, uma lei municipal oficializou o local como o Bairro Guajuviras, integrando-o definitivamente ao mapa urbano de Canoas.

Inauguração do Conjunto Comercial Canoas (CCC) em 1976.

O LEGADO DOS ENGEL | A revelação dos bastidores

Apesar do duro golpe sofrido no episódio Guajuviras, a família Engel escreveu páginas fundamentais no desenvolvimento econômico de Canoas e Nova Santa Rita. Johannes Engel não apenas fundou a Urbanizadora Concórdia, como também foi o idealizador e criador do Conjunto Comercial Canoas (CCC) em 1976 — considerado o primeiro shopping center do Rio Grande do Sul e um dos pioneiros do país, introduzindo conceitos inovadores como loja âncora e aluguel variável.

Hoje, os negócios familiares e o compromisso comunitário seguem sob o comando de seu filho, Arno Engel. Administrador de empresas, ex-fundador da Construtora Traço, da Imobiliária Muck, com passagens pelo setor de tecnologia, agro e atuação incisiva no associativismo (CICS Canoas, COMMA e Conselho de Desenvolvimento Urbano), Arno mantém viva a memória do pai.

Em um recente depoimento revelador concedido ao programa AldeiaCast, Arno Engel reviveu os detalhes de como o Estado se apropriou do sonho de seu pai e das terras recém-adquiridas da família Renner, revelando o sentimento de ver uma ideia brilhante transformar-se em uma desapropriação estatal injusta:

“Existia uma fazenda chamada Guajuviras e a Fazenda Nazário. Essa fazenda tinha mil hectares e era da família Renner. Eu fui junto com o pai num domingo na casa dos Renner, lá na Travessa da Carlos Gomes, em Porto Alegre. Estavam todos os herdeiros. O pai comprou a fazenda Guajuviras para fazer um megaprojeto habitacional.

E o pai entrou com um projeto de grande porte para fazer um grande empreendimento habitacional. Como era uma alçada muito maior do que os agentes daqui esse projeto foi a Brasília para viabilizar o financiamento, né? Para fazer a construção.

Ele comprou e a resposta, depois de muito esperar e tramitar, apresentar projetos, viabilidades, vem uma desapropriação da área. Ou seja… ‘não, não, deixa que a gente vai…’ e desapropriaram ela. Tiraram a área.”

Arno Engel, em depoimento ao AldeiaCast.

O depoimento de Arno resgata a verdade histórica sobre o nascimento do Guajuviras: antes de virar símbolo da habitação popular estatal e da resistência dos movimentos sociais de 1989, o bairro nasceu do olhar arrojado da iniciativa privada. Um projeto arrojado que, atropelado pela burocracia e pelo autoritarismo estatal da época, teve seu destino drasticamente alterado, marcando para sempre a história de Canoas e a memória da família Engel.

PARA RELEMBRAR A CONQUISTA DO GUAJUVIRAS

Guajuviras uma luta histórica por moradia

Quem chega ao bairro Guajuviras, no quadrante Nordeste de Canoas, não imagina que aquele local tem sua história marcada pela luta por moradia e condições mínimas à dignidade humana. As escolas, unidades de saúde, praças, pavimentação, transporte público e saneamento já foram um sonho para os moradores da região. Toda a estrutura e serviços públicos disponíveis hoje à comunidade marcam a evolução de uma ocupação que começou em 17 de abril de 1987, data que deu origem ao nome da avenida principal do bairro.

Os anos da década de 1980 foram marcados pela luta por moradia e emprego. Época em que muitas ocupações ocorreram em diversas regiões do Brasil, e grupos de Frentes de Trabalho iam sendo criados na busca por qualidade de vida. O cenário não era diferente em Canoas: a ocupação do bairro Guajuviras, onde ficava o conjunto habitacional Ildo Meneghetti, surgiu através da necessidade de moradia que assolava a população naquela época.

A área onde fica o bairro foi desapropriada, em 1972, pelo Governo do Estado. Em 1979, a Companhia de Habitação do Estado do Rio Grande do Sul (Cohab) aprovou junto ao Município o projeto do conjunto habitacional Ildo Meneghetti e iniciou as obras de 6.400 moradias. Porém, em 1984, a Cohab já não estava mais dando conta das obras, e a construção das moradias acabou abandonada.

Hermínio Farinha Vargas, o Farinha

Cenário político e econômico

O período marcava o fim do regime militar no Brasil, e o cenário econômico do país sofria com a inflação, que tirava o poder de compra dos trabalhadores. Os recursos públicos eram mínimos e não davam conta de subsidiar grandes obras, como os conjuntos habitacionais do Guajuviras, em Canoas, e do Rubem Berta, em Porto Alegre. As construções já sofriam a ação das intempéries e, abandonadas, viam o país submergir ao fracasso do Plano Cruzado e ao fechamento do Banco Nacional de Habitação (BNH) – que poderia subsidiar os recursos para conclusão das obras.

Em 1987, Canoas enfrentava um déficit de moradias, com aluguéis cada vez mais difíceis do trabalhador pagar, e contava com um conjunto habitacional abandonado e inacabado. A cidade tinha indústrias e passou a ter oportunidades de emprego, mas faltava lugar para esses trabalhadores morarem. Foi então que no dia 17 de abril de 1987, uma Sexta-Feira Santa, após muitas reuniões com movimentos sociais e organização, ocorreu a ocupação das 5.924 moradias.

Moradia e dignidade

A partir dessa data, muitas batalhas foram enfrentadas, com resistência e resiliência. Não se tratava apenas de moradia, mas da busca por dignidade. Um grupo de canoenses, com origem no município, mas também de cidades do interior, que vieram para Canoas em busca de trabalho, marcou a história da cidade ao produzirem uma das maiores ocupações populares de Canoas e do Sul do Brasil. Na época, a cidade também dava início a outras ocupações, como a Santo Operário, no bairro Harmonia; União dos Operários e Vila Natal, no bairro Mathias Velho.

Personagens da ocupação

Aquela ocupação de quase seis mil moradias, hoje se reflete em mais de 41 mil moradores, conforme dados do Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022, e resultou na política habitacional de regularização fundiária, que até o momento já conta com mais de dois mil lotes regularizados.

Isso é reflexo da luta de muitas lideranças que não desistiram diante dos desafios que surgiam pelo caminho. Depois da ocupação, a luta não parou, muitos salientam que foi quando, de fato, ela começou. Sem água e comida, não podiam voltar se saíssem do local. Quando alguém levava água ou alimento, a Brigada Militar (BM) impedia a entrada, seguindo a ordem que recebiam. Lideranças como Maria Aparecida Flores, a Cida; Antônio Vianna (in memorian), que tem seu nome em uma praça do bairro; Luiz Carlos da Conceição, o Bailarino, e Marcos Machado (in memorian) fizeram a diferença.

Luiz Carlos Conceição, o Bailarino

Organização para garantir o direito à moradia

Natural de Camaquã, Maria Aparecida Flores, a Cida, foi uma das lideranças que ocupou e colaborou com a organização do movimento. Ela chegou a Canoas na década de 1970 e morava em uma casa alugada no bairro Fátima. Integrante da Ação Católica Operária, sua atuação no movimento social da Igreja Católica foi importante no processo de ocupação do conjunto habitacional Ildo Meneghetti.

Maria Aparecida Flores, a Cida

“A nossa ocupação foi muito organizada. Nós temos as quadras, que ainda organizam o bairro e, na época, cada quadra tinha um líder, que era escolhido pelos moradores daquela quadra. As reuniões eram feitas com todos os líderes, de todas as quadras. Eles eram os representantes dos demais moradores. Isso fazia com que todos os moradores soubessem de tudo que estava acontecendo. Essa organização permitiu que nós conseguíssemos ter o direito à moradia”, relembra Cida.

Manter o legado da história do bairro Guajuviras é um compromisso de Cida. “Todos os anos, no mês de abril, eu vou às escolas para conversar com as crianças sobre a história do bairro. Elas precisam saber da nossa história. Muitas não sabem o motivo da avenida 17 de Abril ter esse nome”, destaca.

Além de moradores, que foram líderes da ocupação, outras figuras também tiveram uma participação importante no processo. Alguns políticos como o senador Paulo Paim e vereadores da época; religiosos como o padre Armindo Cattelan, que foi pároco da Igreja Matriz São Luís Gonzaga, a primeira de Canoas, e o Irmão Marista Antonio Cecchin (in memorian), militante dos movimentos sociais, e o ex-procurador do Estado do Rio Grande do Sul, Jacques Távora Alfonsin, conhecido como o advogado das causas populares, também tiveram papel fundamental.

Com a luta das lideranças do bairro, muitas demandas foram conquistadas ao longo dos anos, entre elas: escolas de ensino fundamental, escolas de educação infantil, unidades de saúde, um equipamento cultural e várias praças.

Uma Resposta

  1. Meu pai José Simas, na época oficial de justiça da ativa, trabalhou fortemente tanto na desapropriação, quanto na ocupação do Guajuviras…imagina quanto “perrengue” ele passou! Só pra registro…valeu Marco Leite! Essa matéria daria um livro rico em detalhes…Abs!

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