“(…) Lá bem no alto do décimo segundo andar do ano
Vive uma louca chamada Esperança (…)”
— Mário Quintana
Há momentos na vida em que o tempo parece parar e a rotina maluca do mundo exterior perde todo o sentido. Ficamos anestesiados pela engrenagem do dia a dia, correndo sem pensar, esquecendo de onde viemos e para onde queremos ir. Mas a vida, na sua infinita sabedoria, sempre nos dá uma oportunidade de pausa. Para mim, essa pausa encontrou abrigo no silêncio da Comunidade Terapêutica Fazenda Renascer, na Lomba Grande — o lugar onde aprendi que a maior vitória não é ausência de dor, mas o renascimento da dignidade.
Foi lá que resgatei a palavra que daria sentido a tudo o que sou hoje: Esperança.
Lembro com perfeita clareza daquele domingo de maio, um dia em que a vida entrelaçou o Dia das Mães e a Abolição dos Escravos. Eu estava prestes a sair da Fazenda e dei o meu depoimento de despedida aos meus companheiros. Utilizei a palavra adicto — que no fundo significa escravo — como tema central do meu relato. Olhei para a plateia de familiares e lá estava ele: meu pai, seu Vilmar Damasceno Diniz Leite, já em um estágio avançado da demência alcoólica.
Naquele momento, o salão ao meu redor desapareceu. Ficamos apenas nós dois.
Mesmo sabendo que a doença já havia roubado parte da sua compreensão do mundo real, comecei a falar diretamente para ele. Falei que, embora ele tivesse criado muito bem seus filhos e sido um bom marido, ele nunca teve a oportunidade de conhecer o caminho da libertação do álcool. Quando olhava para o meu pai, eu enxergava o meu próprio futuro se não tivesse dobrado os joelhos, aceito os Doze Passos e me dado uma nova chance. Naquele dia de alforria, o escravo que fui só queria uma coisa: o abraço do seu pai.
A doença dele não permitia que ele entendesse todas as palavras, mas bem no fundo da minha alma, sei que Deus traduziu o meu coração para o dele. Ele soube, naquele instante, que seu filho tinha finalmente acertado o caminho.
E a maior prova dessa cumplicidade, que nem a doença e nem o tempo puderam apagar, era o que vinha depois. A minha maior força para continuar de pé, enfrentando as dores do mundo real em sobriedade diária, não vinha de diplomas ou celebrações. Vinha daquele momento exato em que eu chegava perto dele e gritava:
—“Como é que vai o meu ALMIRANTE?”
E, em resposta, recebia o sorriso mais lindo, agradecido e sincero do mundo — aquele sorriso sem dentes que iluminava toda a minha alma e me garantia que valia a pena continuar sóbrio por mais um dia.
Hoje, no calendário, é Dia dos Pais. Um dos tantos sem a presença física do meu Almirante.
Ah, se eu pudesse, o que eu mais queria neste domingo era cruzar qualquer distância apenas para te dar aquele abraço de alforria que ficou guardado no peito. Um abraço apertado, demorado, sem precisar dizer palavra alguma. Mas compreendi que o amor verdadeiro não se limita à presença física. Décadas de saudades não conseguem apagar a certeza de que o senhor continua, de algum lugar do infinito, olhando por mim e me guiando.
A Esperança não é uma ilusão; é a força que nos faz levantar todas as manhãs. Quando escolhi me libertar das amarras do vício, passei a fazer parte da família da Esperança. E hoje, mesmo com os olhos rasos d’água e com o peito apertado de saudade, prossigo na luta diária para me tornar um homem cada vez melhor — honrando a sua história e o seu sobrenome.
Se alguém hoje me perguntar na rua de onde tiro forças para continuar caminhando de cabeça erguida, responderei com os versos do poeta:
“Preciso lhes dizer tudo de novo? O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA!”

Obrigado por tudo, meu pai.
Que a minha sobriedade e a minha paz sejam a minha eterna prece de amor para ti.
Saudade, meu eterno Almirante “Seu Vilmar”.
Feliz Dia dos Pais para todos!








