A FARSA QUE SALVA VIDAS | A alquimia da cevada e o amargo adeus ao Cosmopolita

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Para chegar ao privilégio de degustar um “café chique” e poder chorar, com poesia, o fechamento de uma cafeteria icônica, eu precisei, primeiro, ser salvo por uma farsa.

Hoje, aos trancos e barrancos com a vida moderna, eu confesso: sou um viciado na qualidade da torra. Gosto de escolher, de sentir o aroma invadindo a casa enquanto eu mesmo moo o grão de manhã cedo. Mas nem sempre foi assim. Na minha história, o café de verdade teve que esperar a sua vez, cedendo espaço para uma impostora generosa.

A grande maioria dos que me leem conhece o meu processo de transformação. Sabem que, há exatos 21 anos, bati na porta da Comunidade Terapêutica Fazenda Renascer. Fui em busca de um milagre que me arrancasse das garras do álcool e das drogas. Dia desses, o destino me fez refazer aquele mesmíssimo caminho. Voltei lá para levar um amigo especial, alguém que procurava ajuda para um jovem adicto, mais um menino tentando escapar do cárcere das emoções e dos prazeres imediatos que, após a euforia, só deixam como herança a tristeza e o arrependimento profundo.

E sabem qual foi a primeira coisa que me veio à mente ao pisar novamente naquele solo sagrado da minha recuperação? Não foi o medo de outrora, não foi a dor da abstinência. Foi, por mais estranho e verdadeiro que pareça, o cheiro inconfundível do Café com Cevada. Esse é o conto que conto agora.

Na Renascer, assim como em outras comunidades terapêuticas sérias, a cevada não é um quebra-galho; é uma arma silenciosa, poderosa e de uma inteligência brutal. O café tradicional, como o nome já sugere, carrega cafeína. E a cafeína, como se sabe, deixa o sujeito “mais ligado”. Para uma mente adicta em tenra e frágil recuperação, qualquer agitação extra é um perigo iminente, um gatilho engatilhado para a recordação do uso das drogas. Afinal, a recaída é apenas um lapso fatal na armadilha da nossa própria memória.

A compulsão pela substituição é algo que beira o inexplicável. Vocês não fazem ideia — só quem passou por aquele purgatório tem a exata dimensão — da alegria colossal que era tomar aquela “borra” rala. Eles diziam ser café. Nós, com a alma em frangalhos, fingíamos acreditar com todas as forças. A história nos conta que a cevada foi a substituta oficial do café em tempos de crise econômica ou de racionamento militar, sempre associada à simplicidade da vida no campo, ao fogão a lenha das avós. Mas ali, nas trincheiras da reabilitação, era o nosso elixir da sanidade.

O segredo da receita era milagroso na sua simplicidade: um bom tanto de café misturado à cevada torrada, somado à delicada alquimia do resgate do comportamento humano. Essa “borra disfarçada”, fazendo-se passar por um café exótico em nome da minha recuperação, preencheu minha memória afetiva para sempre. São as pequenas mágicas da substituição de prazeres que fazem com que, aos poucos, o ser humano atravesse o doloroso processo de cura. A danada da cevada fingiu ser café, me enganou direitinho, e conseguiu me manter são. Para minha salvação e alegria de todos que torceram por mim.

Mas, esperem um momento. Lembrar dessa farsante me deu uma vontade absurda de um café de verdade. Vou ali na cozinha passar um, fumegante, forte, e já volto para terminar essa prosa…

Pronto. Voltei. Caneca quente na mão. E é justamente olhando para o vapor que sobe dessa xícara que a nostalgia muda de endereço, me puxando da sobrevivência para a vivência. Deixo a fazenda e a cevada guardadas no relicário do passado, e aterrissava na minha mais recente e dolorosa orfandade: o fechamento do Cosmopolita.

Se a cevada me manteve vivo há 21 anos, os ambientes de café passaram a ser o lugar onde eu celebrava essa vida. É o meu momento de lazer e sanidade, o “despertar” oficial do meu dia. E o meu lugar encantado na Aldeia de Canoas cerrou suas portas. Perde a cidade, perde o poeta. Acordo sabendo que mudei de hábito, não por escolha, mas por um golpe implacável do tempo. Estou órfão. Órfão do aroma de grão moído logo cedo no centro, do tilintar afinado das xícaras no pires, do abraço apertado dos velhos amigos que consertavam o Brasil entre um gole e outro. Como era bom o meu “cafépolita”.

Encontrar os amigos exige duas coisas fundamentais: gente e ambiente. Hoje, sinto a dor física de perder ambos naquela mesma esquina sagrada da Avenida Victor Barreto com a Fioravante Milanez, herdeira da mística do velho Calçadão da Tiradentes.

Ali, o café nunca foi apenas bebida; era altar de memórias. Impossível pisar ali sem evocar a figura histórica do português Amadeu Mota e o seu saudoso Café Imperial. Quando a pandemia de 2020 impôs o silêncio doloroso, o querido amigo Gilberto Manfroi reabriu aquelas portas em setembro de 2021. Lembro de pedir minha tradicional “meiota” de café preto e jurar ver o sorriso do seu Amadeu aprovando a continuidade do ritual.

Mais tarde, com a fidalguia de sempre, Gilberto passou o bastão aos novos anfitriões, Fábio Alves e Michelle Nievirsoki.

O Cosmopolita apagou suas luzes, mas deixa um rastro de gratidão. Sempre haverá outro lugar; a vida exige que a gente caminhe. No entanto, o gosto daquele encontro fica gravado.

Sobrevivi à base de café com cevada. Vivi e celebrei plenamente à base do café do Cosmopolita. Ao seu Amadeu, ao Gilberto e a cada companheiro de mesa: meu emocionado obrigado. A porta de aço se fechou, mas a nossa prosa… ah, essa continua eterna.

 

Uma Resposta

  1. Caro Marco
    Leio atentamente vossa resenha – dando conta do fato sobre o Cosmopolita, enquanto, assisto noticiário dando conta da preocupação dos Líderes Mundiais para o mal que está a fazer e, o possível comprometimento, que, ameaça até mesmo a continuidade da humanidade pelo descomedir e exacerbado desmedido uso da IA – Inteligência Artificial.
    É Claro que o mundo gira, que a fila anda, que quer queiramos – ou não, o futuro é inevitável !
    Até mesmo pq, sem o “futuro”, estaríamos diante da catástrofe e hecatombe, fadados ao apocalipse humano.
    Agora, de volta ao aroma do café e ao prazer do encontro e reencontro numa mesa de bar, ou em qualquer outro lugar, profissional ou não, como cada dia que passa está mais em falta este tipo de comportamento…
    Sou leitor das vossas crônicas, textos e noticias, tive convosco um único encontro presencial !
    E foi numa manhã agradável, passava eu pelo “COSMOPOLITA” e, vos reconhecendo, entrei para vos cumprimentar e ali estava Sua Pessoa com outros AMIGOS, saboreando o “cimento místico da amizade”:
    – Um Bom e Aromático CAFÉ !
    Trocamos algumas palavras gentis, apresentou–me os que vos acompanhavam no “cafezinho” e eu segui meu curso na caminhada com meu Chimarrão. Registro para grafar a importância que é dar um tempo ao nosso tempo, tirar 5 minutinhos pra cumprimentar uma pessoa e buscar aproximar o lado humano !
    Enquanto tivermos quem registre – pelos sentidos sensoriais, os instantes e momentos que constroem a História de uma Sociedade, com sensibilidade e Inteligência “NATURAL” carregado de Sentimento Humano, certamente, estaremos transmitindo o LEGADO de Pai pra Filho e de Geração à Geração.
    Que tenhamos todos os devidos cuidados e acuidade, pra que com tenência, bem saibamos preservar os escritores de contos, casos e causos, com uma prosa que toca o coração, distante, do lado maledicente da IA.
    Heráclito – 450 aC, disse-nos:
    – O Que há de eterno é a Mudança !!!
    Que o Criador nos Proteja, Ilumine e Guarde, que as mudanças sejam Propositivas e POSITIVAS, que possamos continuar, como Ser Humano que busca Mais Humano SER.
    Sigamos, Ombro a Ombro,
    Em Frente e Para o Alto !!!

    Fraterno Abraço – GRAP

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