CAMINHOS DA VIDA | A parábola da virtude mofada do Joãozinho do passo certo

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A “Moral de Cueca do Joãozinho do Passo Certo” nas Relações Humanas

 Poucas coisas na física social brasileira são tão fascinantes quanto a incapacidade do ser humano de perdoar o sucesso alheio. O fracasso de um amigo nos desperta uma vaga e caridosa simpatia; já a sua ascensão meteórica nos causa uma indigestão ética sem precedentes. É no instante em que o vizinho troca de carro, o colega ganha a promoção ou o “desencaminhado” da família volta por cima que desperta no peito do medíocre uma entidade quase milenar: o Joãozinho do Passo Certo.

Se voltarmos dois milênios no tempo, lembraremos do irmão mais velho na famosa Parábola do Filho Pródigo. Enquanto o caçula torrava a herança com festas e extravagâncias, o mais velho permaneceu no campo, batendo o ponto no horário, limpando as botas no capacho e cultivando uma rancorosa auréola de bom moço. Quando o pródigo retorna e o pai manda abater o bezerro gordo para a festa, o virtuoso primogênito não se alegra. Ele se indigna. O problema dele nunca foi a justiça; foi a festa que ele não teve a ousadia de dar e o Bezerro Gordo que foi servido ao “indigno”.

Na modernidade, esse irmão mais velho não mora mais na Judeia antiga. Ele habita as salas de reunião, os grupos de WhatsApp da família e os corredores corporativos. Ele renasceu revestido da insuperável moral de cueca do Joãozinho do Passo Certo.

Para entender essa figura, é preciso decompor a sua estrutura psicológica.

O Joãozinho do Passo Certo é aquele indivíduo que assiste ao desfile da vida da janela do seu ressentimento. Quando a tropa inteira marcha com a perna direita, e ele é o único a levantar a esquerda, Joãozinho não se questiona. Ele não consulta o ritmo, não ouve os tambores, não reavalia a própria passada. Com o queixo erguido e a soberba dos injustiçados, ele decreta para quem quiser ouvir: “Olha lá, o exército inteiro está marchando errado, só eu acertei o passo!”

Nas relações humanas, o Joãozinho é incapaz de aceitar que o outro prosperou por mérito, audácia, sorte ou carisma. Para proteger a própria imagem de perfeição estática, ele prefere criar a narrativa de que o mundo caduco se corrompeu, enquanto ele permanece como o último bastião da ordem e da decência. Se o outro subiu na vida, “alguma coisa errada fez”; se o outro foi comemorar, “é um irresponsável sem noção”.

Porém, a solidão de marchar sozinho no passo errado cobra seu preço. Ninguém consegue se manter no pedestal do purismo sem uma boa dose de camuflagem. É aqui que o Joãozinho veste a sua “moral de cueca”.

A moral de cueca é o discurso ético inflamado emitido por quem carrega dólares — ou pequenos escândalos éticos do cotidiano — escondidos sob o cós da própria conduta. É o sujeito que aponta o dedo para a fatura do restaurante do colega enquanto sonega o imposto da própria empresa; é o parente que prega a “família e os bons costumes” no almoço de domingo, mas mantém duas vidas paralelas na surdina.

Quando deixei a comunidade em 2006

Quando essas duas forças se unem no mesmo indivíduo, a ironia atinge seu estado de arte:

Soberba Absoluta (Passo Certo)  +  Hipocrisia Oculta (Moral de Cueca)} =  O Juiz Inquestionável do Erro Alheio

Ele ganha a autoridade moral que não possui para cobrar dos outros uma conduta limpa que ele mesmo jamais praticou. E o motivo dessa cobrança feroz nunca é a busca pela justiça: é a inveja primária. O que o irrita profundamente não é o desvio do outro, mas o fato de o outro ter ousado voar enquanto ele preferiu o conforto mofado da sua própria gaiola.

Se o Filho Pródigo voltasse hoje, o Joãozinho do Passo Certo não apenas recusaria o convite para a festa — ele faria uma denúncia anônima na vigilância sanitária alegando que o bezerro gordo foi servido fora da temperatura ideal. Em seguida, convocaria uma coletiva no corredor para lembrar a todos dos “passados obscuros” do homenageado, terminando com o tradicional suspiro: “Eu sempre fiz tudo certo e ninguém nunca me abateu um bezerro…”

A verdade é que a moral de cueca do Joãozinho do Passo Certo não passa de uma armadura de papelão construída para proteger o ego de quem não suporta ver o brilho do próximo.

Ao Joãozinho, resta o consolo trágico dos hipócritas: a certeza inabalável de que ele é o único homem correto do planeta… enquanto marcha sozinho, no compasso errado, em direção ao esquecimento.

A foto da capa, emblemática, é de 2005. Quando entrei em uma fazenda terapêutica, onde passei 9 meses, 27 dias e mais 24 horas. Poucos lembram disso, mas eu e meus verdadeiros amigos lembramos bem. Obrigado a todos, como diria Jesus Pfeil, “os verdadeiros”.

 

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