Dois anos após o maior desastre climático da história do Rio Grande do Sul, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentou os resultados inéditos da Pesquisa Especial sobre as Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul (PEERS). O levantamento experimental investigou o impacto do evento extremo diretamente com os moradores. Ao todo, foram mapeados os reflexos da tragédia na qualidade de vida, saúde mental, moradia e economia de 133 municípios gaúchos.
No epicentro dessa catástrofe, o município de Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre, destaca-se como um dos territórios onde as marcas da inundação permanecem mais profundas. Com cerca de 44% de sua população diretamente afetada — o equivalente a mais de 150 mil pessoas —, a cidade traduz em histórias reais as estatísticas frias do levantamento.
O TAMANHO DO IMPACTO NA ÁREA PESQUISADA
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│ • 2,3 milhões de residências afetadas │
│ • 6,3 milhões de pessoas atingidas │
│ • 88% dos domicílios apresentaram ocorrências de danos │
│ • 66,3% sofreram com interrupção de Água e Luz │
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O Tamanho do Desastre: Do Estado ao Solo de Canoas
Os números da PEERS impressionam pela escala. Estima-se que as enchentes afetaram cerca de 2,3 milhões de residências, atingindo diretamente 6,3 milhões de pessoas nas áreas pesquisadas. Dentre os domicílios investigados, assustadores 88% registraram ocorrências ligadas às inundações, sendo a interrupção de água e energia elétrica a queixa mais comum (66,3%).
Em Canoas, a realidade não foi diferente. Cortada por diques que não suportaram a força histórica das águas do Rio Gravataí e dos demais rios da bacia hidrográfica, a cidade viu bairros inteiros desaparecerem sob o mapa da inundação. O imenso bairro Mathias Velho, o mais populoso do município com cerca de 48 mil habitantes, além do Rio Branco e Harmonia, foram completamente submersos, deixando milhares de famílias desabrigadas de uma hora para a outra.
O Épico dos Resgates: A Força da Solidariedade
Um dos dados mais marcantes revelados pelo IBGE diz respeito ao momento mais crítico da tragédia: o socorro imediato. Segundo IBGE, em 28% dos domicílios afetados (652 mil residências), o acesso físico tornou-se impossível.
Na ausência de caminhos transitáveis, a solidariedade civil assumiu o protagonismo das operações:
- 74,9% dos resgatados contaram com o apoio heróico de voluntários.
- 35,4% das ações contaram com a participação de órgãos oficiais (como Forças Armadas, Corpo de Bombeiros e Defesa Civil).
- O transporte aquático (barcos e botes) foi o principal meio utilizado, respondendo por 70,0% das remoções.
Esse cenário de resgate fluvial comunitário marcou profundamente a rotina de Canoas. Foi nas águas barrentas do Mathias Velho que voluntários de todo o Brasil se uniram com barqueiros locais para retirar famílias inteiras de cima dos telhados das casas. Foi também ali que ocorreu um dos maiores símbolos nacionais de resiliência e comoção da tragédia: o resgate do cavalo “Caramelo”, que passou dias isolado no topo de uma residência submersa.
O Êxodo Forçado e os Danos Estruturais
A pesquisa revelou também a dura realidade de quem perdeu tudo ou quase tudo. No estado, 11,7% dos domicílios foram avaliados como “destruídos” ou “muito danificados”, e mais da metade dos moradores (55,5%) reportou algum tipo de dano na estrutura física de suas residências.
Essa destruição gerou uma onda migratória forçada de grandes proporções:
- 14,6% das pessoas mudaram de endereço após a tragédia.
- Desse total, 37,9% apontaram expressamente as enchentes como o motivo direto da mudança de moradia.
- A vulnerabilidade social fica explícita quando analisamos a renda: entre os que precisaram migrar, 28,3% viviam em lares com rendimento domiciliar de até apenas 2 salários mínimos (até R$ 2.000,00).
Para Canoas, o impacto imobiliário e social foi devastador. Milhares de moradores do Mathias Velho e de bairros adjacentes precisaram ser acolhidos temporariamente em dezenas de abrigos espalhados pela cidade e pela capital gaúcha, iniciando uma lenta transição para novas casas ou aguardando o custoso processo de reconstrução de suas moradas originais.
IMPACTOS NA QUALIDADE DE VIDA
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│ • Saúde mental abalada: 67,5% dos lares │
│ • Interrupção no convívio social: 58,4% │
│ • Dificuldade no deslocamento: 57,3% │
│ • Paralisação de atividades estudantis: 78,9% │
│ • Interrupção do trabalho remunerado: 56,4% │
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Cicatrizes Invisíveis: A Saúde Mental sob Alerta
Se a destruição dos lares é visível, as feridas psicológicas são invisíveis, porém igualmente avassaladoras. De acordo com os dados apresentados, em 67,5% dos domicílios pesquisados, pelo menos um morador teve a sua saúde mental abalada em virtude da tragédia.
Na Região Intermediária de Porto Alegre, onde Canoas está inserida, esse índice foi ainda maior, superando a barreira dos 73%, o maior índice de estresse pós-traumático e angústia entre todas as regiões avaliadas pelo IBGE. O medo de novas chuvas e o trauma do resgate transformaram a relação dos canoenses com o clima.
Além do aspecto emocional, a vida social e econômica sofreu paralisias brutais:
- 58,4% das residências registraram quebras ou interrupções no convívio social próximo com familiares e amigos.
- 57,3% relataram graves dificuldades de deslocamento físico diário.
- Na educação, 78,9% dos estudantes viram-se obrigados a suspender a frequência às aulas; embora no período final da pesquisa 94,8% já tivessem retornado à rotina escolar.
- No mercado de trabalho, 56,4% dos trabalhadores enfrentaram a interrupção temporária de seus empregos ou atividades remuneradas.
Economia e Auxílio Governamental: O Desafio da Sobrevivência
A PEERS demonstra que a catástrofe afetou majoritariamente as classes sociais de menor poder aquisitivo. Do contingente populacional impactado, 66,8% pertencia a domicílios com rendimento mensal total de até 5 salários mínimos (até R$ 5.000,00).
Como mecanismo emergencial de alívio, as frentes governamentais de assistência financeira (como o Auxílio Reconstrução e programas locais) alcançaram 20,8% dos domicílios afetados, sendo que a maioria esmagadora desses beneficiários (52,9%) concentrava-se na faixa de renda de até R$ 3.000,00 mensais.
Canoas atuou intensamente no cadastro dessas famílias, criando canais de atendimento em escolas e ginásios públicos para garantir que os moradores pudessem receber os recursos necessários para readquirir eletrodomésticos, móveis e iniciar o restabelecimento de suas vidas.
Caminhos para a Resiliência Climática
A Pesquisa Especial do IBGE (PEERS) funciona como uma radiografia científica essencial que não apenas registra a dimensão da tragédia gaúcha de 2024, mas também estabelece as bases para o planejamento de políticas preventivas mais eficazes em todo o território nacional.
Para Canoas, o relatório do IBGE chancela a urgência das obras de infraestrutura que estão sendo executadas e planejadas desde o desastre, como a elevação das cotas de proteção e o reforço estrutural do sistema de diques e das bombas de escoamento de água. A história da reconstrução de Canoas e de seus bairros mais vulneráveis continua sendo escrita dia após dia, embalada pelo mesmo espírito de união que mobilizou a esquadra de barcos voluntários na hora mais escura daquela histórica cheia.
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