O sol sequer despontou no horizonte e eu já me sinto esgotado. A luz fraca que entra pela fresta da janela desenha sombras longas no quarto, lembrando-me do cenário opressor de Gotham City — uma cidade perpétua em trevas, onde o crime e a desesperança se entrelaçam em uma valsa macabra. Hoje, meu Gotham particular não é apenas uma metrópole fictícia; é o País. É o ar pesado que respiro, é a lama em que pisamos. E a vontade de levantar, de encarar as ruas úmidas e cinzentas para ir às urnas? Praticamente nula. É um esforço descomunal, como tentar erguer o peso de um mundo que já desabou.
Os geniais Wolfgang Amadeus Mozart (1791) e Giuseppe Verdi (1874) compuseram obras sublimes sobre o Réquiem. A palavra deriva do latim requiem (acusativo de requies, que significa “descanso” ou “repouso”). O nome surgiu porque a primeira frase do cântico de entrada da missa em latim é “Requiem aeternam dona eis, Domine” (Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno).
Volto ao passado, pois é assim que me sinto hoje, saindo de uma daquelas festas que a juventude romantiza, completamente arrependido, com o gosto amargo da ressaca na boca e a alma vazia. À noite, dissimulada, te oferece muitas drogas, assim como nessa eleição. Estou mais uma vez vagando pelas ruas do Xis do Rapach, como um morto-vivo, zumbizando sob os postes de luz piscantes. A droga nem sempre é o barbitúrico consumido na escuridão; muitas vezes, é o que você aceita durante a sua caminhada, as pequenas concessões diárias, as mentiras que engolimos como verdades provisórias.
Estou falando de mim: cansado, derrubado e arrependido. Já fui votar assim, em um estado de decomposição física e moral. Mas hoje, o que sinto não é apenas a minha própria ruína, é a decomposição do Estado. Se é que me fiz entender na ironia trágica que nos cerca.
Acordei, mas eu queria despertar. Após muitos anos de vida acompanhando a política, de ver rostos mudarem e os discursos se repetirem como um disco riscado, não sei em quem votar. Sinto uma vontade primitiva de rasgar a cédula, de sentir o papel ceder entre meus dedos como um ato final de protesto. Mas agora, até essa rebeldia tátil nos foi tirada. É tudo eletrônico. Um botão verde, um bip frio, e o destino está selado.
Desperta, eleitor. Eles conseguiram. Tiraram o seu sono, minaram a sua esperança, deixaram-no apático, contemplando o próprio desastre.

Não posso mudar um País sozinho, e a solução, de forma ululante, não está nesses candidatos que aí se apresentam como opção. São as mesmas engrenagens enferrujadas do mesmo mecanismo viciado.
Sim, eles conseguiram. Tiraram o meu direito fundamental de mudar, de acreditar que a mudança é possível através de um pedaço de papel ou de um botão luminoso.
Somos quase 170 milhões de eleitores, apertados em um barco furado, remando em círculos enquanto a água sobe. Quero despertar dessa letargia, mas hoje apenas acordei. O simples fato de não ter morrido dormindo de decepção com o que se apresentou nestas eleições já é um feito. Durante meses, vi um e outro defender o indefensável, contorcendo a ética até optarem, como sempre, pelo “menos pior”. A mediocridade virou o nosso teto.
Um réquiem para o nosso agonizante País. Esse sim é o De Cujus, o falecido que morreu há muito tempo, mas cujo cadáver insepulto continua sustentando as mesmas sanguessugas de sempre.
Vamos beber o morto. E depois, com a cabeça latejando e a alma em frangalhos, vamos decidir em quem votar. Ou simplesmente apertar o botão branco, o nulo, o grito silencioso no abismo de Gotham.









Uma Resposta
Eu me sinto contemplado em cada palavra! Conseguiu exprimir o sentimento com uma crueldade linda, coisa que apenas um poeta tem condições de fazer. Sem dúvida alguma, um dos artigos mais certeiros de todos os tempos.