Hoje acordei mais cedo, às 5h. A Guilhermina resolveu que deveria brincar em plena madrugada e, bem, quem inventa, aguenta. No silêncio dessas primeiras horas do dia, com o café ainda passando e o mundo lá fora tateando a luz da manhã, meus pensamentos acabaram fazendo uma curva inesperada. Da insistência brincalhona de quem me acordou, rumei direto para a grande expectativa do final de semana.
A final da Copa do Mundo chegou. Domingo será o palco do duelo definitivo entre a tenacidade e a consonância. É fascinante olhar para a diferença estética e de alma dessas duas seleções que conquistaram o planeta.
De um lado, a Argentina. Um time que adora a posse de bola, mas que se tornou, acima de tudo, o sinônimo perfeito de persistência, obstinação e perseverança. É um grupo que se recusa a desistir dos seus objetivos, mesmo diante das piores adversidades. Que o digam Cabo Verde, Egito, Suíça e Inglaterra: todos sentiram o peso de perder de virada para os hermanos nas eliminatórias, em partidas heroicas de quem se dobra, mas não quebra, mesmo estando no limite extremo de sua resistência física e emocional. O nome disso é raça; é um patriotismo traduzido em suor e entrega total.
Do outro lado, o consonante time da Espanha. Aqueles atletas funcionam juntos de uma forma que transcende o esporte; é o legítimo “jogar por música”. Há ali uma harmonia tão equilibrada e agradável que tudo parece fluir com uma concordância fora do comum. Eles colocam o adversário na roda sob o tique-taque preciso de um relógio suíço, ditando o ritmo do jogo. Áustria, Portugal, Bélgica e a outrora favorita França sucumbiram a esse futebol que soa bem aos ouvidos e aos olhos. É um coral e uma orquestra jogando juntos, superando obstáculos com uma beleza rara de se ver.
A final está posta. Sul-americanos contra europeus, a raça contra a técnica. Aos arrogantes franceses e ingleses, restou apenas o consolo da disputa pelo terceiro lugar no sábado. No domingo, o mundo finalmente saberá quem sairá vitorioso: se a Tenacidade ou a Consonância.

Mas, enquanto esperava o dia clarear, não pude deixar de pensar no nosso próprio campeonato diário. Estamos em pleno ano eleitoral. E como seria bom se os nossos “times” políticos — aqueles que disputam a preferência da nossa cansada “torcida população” — tivessem os mesmos objetivos e qualidades dessas duas seleções.
Imagine que maravilhoso seria se surgisse um candidato, uma liderança, capaz de encarnar a tenacidade argentina. Alguém obstinado em resolver os problemas históricos de nossa nação, que não desistisse diante das piores crises na saúde, na educação ou na segurança. Um líder com a raça e o patriotismo necessários para lutar de forma heroica pelo povo, mesmo quando as circunstâncias exigissem o limite de sua resistência, sem se corromper ou se entregar ao cansaço.
E como seria revolucionário se o governo desse líder atuasse com a consonância espanhola. Uma equipe de ministros e gestores que funcionassem em perfeita harmonia, sem disputas de egos ou ruídos de comunicação. Um governo que jogasse por música, onde a economia, o social e a infraestrutura avançassem de forma equilibrada, agradável e coordenada, superando os obstáculos com a beleza de um planejamento bem executado.
Para a “torcida população”, ver alguém governar com essas qualidades seria como assistir à melhor partida de nossas vidas. Deixaríamos de ser meros espectadores frustrados com faltas violentas e jogos feios para nos tornarmos torcedores orgulhosos de um país que finalmente avança rumo ao título que realmente importa: a dignidade de seu povo.
O domingo decidirá o campeão do mundo. Mas o nosso futuro se decide nas urnas. Façam suas apostas para o fim de semana — e que não sejam nas Bets, pois elas fazem mal ao futebol e à vida —, mas, acima de tudo, apostem na esperança de que ainda podemos ver a união da raça com a harmonia transformando a nossa realidade.









Uma Resposta
Brasil tem muito o que aprender com o futebol, mas quando nem a torcida se une, imagina o time.