PICOTANDO A POLÍTICA ESPECIAL | Não basta ter votos, tem que saber jogar

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O sistema eleitoral brasileiro, com sua complexidade e nuances, revela uma engrenagem que, embora aparente ser democrática, frequentemente distorce a vontade popular. Quando o cidadão se dirige às urnas, acredita que seu voto é um ato de escolha direta, mas a realidade nos mostra que essa percepção é uma ilusão. No sistema proporcional, o voto nominal é, primeiramente, direcionado ao partido, que utiliza os votos para calcular a quantidade de cadeiras que conquistará. É aqui que surgem os chamados “puxadores de voto”, figuras carismáticas que atraem um número significativo de sufrágios e arrastam consigo candidatos que, muitas vezes, não têm a mesma representatividade.

A ILUSÃO DO VOTO DIRETO E O FENÔMENO DOS PUXADORES

O quociente eleitoral, que resulta da divisão dos votos válidos pelo número de vagas disponíveis, estabelece a base para um fenômeno que, ao longo da história política do Brasil, gerou distorções alarmantes. Exemplos emblemáticos, como Enéas Carneiro em 2002, que com 1,5 milhão de votos pelo PRONA, e o palhaço Tiririca, que em 2010 conquistou 1,3 milhão de votos pelo PR, demonstram como esses puxadores podem elevar à Câmara Federal candidatos que obtiveram votações residuais. No caso de Enéas, ele levou consigo cinco deputados, incluindo um que foi eleito com apenas 275 votos.

O FIM DAS COLIGAÇÕES PROPORCIONAIS E A NOVA REALIDADE

Diante dessa distorção, o Congresso Nacional promulgou a Emenda Constitucional 97 de 2017, que extinguiu as coligações proporcionais, numa tentativa de fortalecer a identidade partidária e garantir que o voto refletisse verdadeiramente as escolhas do eleitorado. No entanto, essa mudança revelou-se insuficiente e, em 2021, o Congresso instituiu as federações partidárias através da Lei 14.208, que, sob o pretexto de unir forças, na prática perpetuou a lógica dos puxadores de votos.

As federações exigem um vínculo duradouro entre partidos, obrigando-os a atuar como uma única bancada, mas ainda assim permitem que a popularidade de um candidato transmita votos a outros menos expressivos. Um exemplo claro disso ocorreu nas últimas eleições, quando Guilherme Boulos obteve mais de 1 milhão de votos, abrindo espaço para que dois candidatos de sua federação, Sônia Guajajara e Luiza Erundina, com 156.965 e 123.940 votos, respectivamente, conquistassem cadeiras. Enquanto isso, o Dr. Cristiano Galindo, que recebeu 178.118 votos, ficou de fora da titularidade, evidenciando que, apesar da quantidade expressiva de votos individuais, a lógica do quociente eleitoral continua a marginalizar candidatos que realmente representam a vontade do povo.

O HISTÓRICO DOS PUXADORES E OS CARONAS DA DEMOCRACIA

A trajetória política brasileira é marcada por episódios emblemáticos que evidenciam essa distorção. O fenômeno Prona, em 1994 e 2002, exemplifica com clareza essa dinâmica. Em 1994, Enéas Carneiro, com seu carisma, conquistou 4,6% dos votos válidos do estado de São Paulo, elevando o quociente do seu partido e arrastando deputados que tinham votações insignificantes, como Dr. Elizeu, que chegou ao Congresso Nacional com apenas 82 votos.

Em 2006, a situação se repetiu com Celso Russomanno, que obteve 573 mil votos pelo PP, garantindo a eleição de um deputado que recebeu apenas 259 votos, e Clodovil Hernandes, que, com quase 500 mil votos pelo PTC, levou consigo um candidato que teve apenas 268 votos. Em 2010, Tiririca, com 1,3 milhão de votos, garantiu a eleição de vários outros candidatos com votações modestas.

Na eleição de 2018, Eduardo Bolsonaro atingiu o recorde de 1,8 milhão de votos, possibilitando ao PSL conquistar 14 cadeiras no estado, permitindo a eleição de candidatos que receberam entre 9 mil e 11 mil votos, enquanto outros com mais de 100 mil votos ficaram de fora. Entre os que viajaram na carona de Eduardo Bolsonaro estavam:

– Carlos Jordy com 53.000 votos

– Bia Kicis com 62.000 votos

– Alessandro Vieira com 50.000 votos

– Fernando Francischini com 35.000 votos

– Sérgio Reis com 26.000 votos

A análise de Canoas: Mais de uma Câmara inteira de distância entre voto e representação

A análise das eleições em Canoas ilustra ainda mais essa problemática e não irei me furtar de analisar o resultado do último pleito. O vereador menos votado, Rodrigo Dávila, do Novo, foi eleito com apenas 1.030 votos. Enquanto isso, outros candidatos que ficaram de fora, mas obtiveram mais votos, incluem:

  1. Agita Samba com 3.294 votos
  2. Dr. Laercio com 1.486 votos
  3. Fabiano Secão com 1.464 votos
  4. Mossini com 1.234 votos
  5. Patteta com 1.500 votos
  6. Larissa Rodrigues com 1.473 votos
  7. Betinho do Cartório com 1.378 votos
  8. Pinheiro Neto com 1.339 votos
  9. Bicudo com 1.337 votos
  10. Rogério Freitas com 1.298 votos
  11. Vitor Longaray com 1.273 votos
  12. Jurandir Maciel com 1.242 votos
  13. Alexandre Tê com 1.225 votos
  14. Luciano da São Luís com 1.213 votos
  15. DJ Cabeção com 1.148 votos
  16. Naligia com 1.142 votos
  17. Maicom Brasil com 1.138 votos
  18. Vitor Labes com 1.125 votos
  19. Agata Mostardeiro com 1.106 votos
  20. Vani Piovesan com 1.064 votos
  21. Chico com 1.060 votos
  22. Nilce Schneider com 1.057 votos
  23. Denilson Santos Zucco com 1.041 votos
  24. Professor Alex Borba com 1.038 votos

Considerando que temos vinte e um vereadores titulares na Câmara e que temos 24 candidatos com mais votos nominais do que um vereador eleito, isso mostra claramente que temos mais que uma Câmara inteira de distância entre a vontade popular nominal e a realidade política de quem sabe jogar o jogo.

Desta forma, o sistema eleitoral brasileiro, com suas mudanças e adaptações, revela-se como um campo onde a habilidade política e a articulação se sobrepõem à representatividade. A criação de fórmulas que beneficiam os mais experientes e/ou astutos no jogo político perpetua um ciclo que aliena o eleitor e distorce a democracia. As federações, embora apresentem uma roupagem de modernidade, não se distanciam da lógica que privilegia os puxadores de votos em detrimento de uma representação genuína.

A NECESSIDADE DE REFLEXÃO CRÍTICA

A crítica a esse modelo não é meramente acadêmica; é um apelo à reflexão sobre a essência da democracia e a verdadeira representação que se deseja. É fundamental que os cidadãos estejam cientes dessas dinâmicas eleitorais e questionem os mecanismos que, ao invés de servir ao povo, parecem favorecer apenas aqueles que dominam o jogo político. O desafio é, portanto, buscar um sistema que realmente respeite a vontade popular e a diversidade de vozes na esfera política.

*O Articulista do Notícias da Aldeia Canoas é advogado e jornalista

 

NOTINHAS | Por Marco Leite

Busato e Eric Douglas lançam suas candidaturas em Canoas

O deputado federal Luiz Carlos Busato e o vereador de Canoas Eric Douglas lançaram na noite desta quarta-feira (26) as suas candidaturas para a Câmara dos Deputados e Assembleia Legislativa. Os candidatos do União Brasil realizaram o lançamento conjunto de suas campanhas e apresentaram suas plataformas para um público de 2 mil pessoas no Clube Tradição, em Canoas.

Fato Real ou Fantasia? O TSE e os Limites da Inteligência Artificial

A rápida evolução e o uso disseminado de ferramentas de Inteligência Artificial (IA) no debate político voltaram a tensionar os bastidores do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A discussão central gira em torno de estabelecer critérios objetivos para separar a liberdade de manifestação e a paródia da manipulação intencional do eleitorado (deepfake).

Critério de Verossimilhança (Proposta do Ministro André Mendonça):

O simples uso de IA em peças publicitárias ou redes sociais não configura, por si só, irregularidade eleitoral.

Para ser classificado e proibido como deepfake, o conteúdo precisa ter um grau de realismo ou verossimilhança capaz de ser confundido com um registro verdadeiro.

Animações, memes, sátiras e caricaturas declaradamente fantasiosas não devem ser enquadradas automaticamente como deepfake, evitando sanções indevidas.

Dilema e Divergência Entre os Ministros

Resolução Atual do TSE: A norma aprovada para o pleito exige transparência estrita (aviso explícito e acessível de que o material foi gerado ou manipulado por IA).

Impasse Judicial: Parte dos ministros defende uma restrição mais ampla para evitar fraudes eleitorais; outros alertam para o risco de hiper-judicialização da campanha e prejuízo à liberdade de expressão humorística ou crítica.

Casos em Pauta:

A discussão ganhou tração a partir de representações envolvendo vídeos manipulados atribuídos a lideranças políticas (como conteúdos veiculados por perfis de oposição e questionamentos entre campanhas sobre o uso de sintetização de voz e imagem).

A busca do TSE é por uma linha divisória clara: punir severamente a fraude sintética desenhada para enganar o eleitor, sem contudo proibir a linguagem satírica e o uso legítimo de novas tecnologias no debate político.

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