O cenário político de Canoas acaba de sofrer um abalo sísmico daqueles que mudam a correnteza do rio. O anúncio oficial da aposentadoria política de Jairo Jorge (PSD), que renunciou a concorrer a deputado estadual em 2026, encerra um ciclo de 41 anos de vida pública, 10 eleições e mais de um milhão de votos acumulados. O homem que ajudou a desenhar o ProUni e o Fundeb nacionalmente, e que governou nossa cidade por 12 anos, agora ruma para o jornalismo e a consultoria.

Sua saída de cena deixa um vácuo imenso e, inevitavelmente, mexe com os aguapés da eleição em Canoas. E quando a água mexe por aqui, meu caro leitor, esses aguapés se movem de forma “forte” e “mente” (sim, o trocadilho é infame, mas a realidade política também é).
Olhando para essa dança das cadeiras, é impossível não lembrar dos versos clássicos que ainda ecoam como um retrato do nosso tempo: nossos heróis morreram de overdose, meus inimigos estão no poder…
O sentimento de nostalgia se mistura com o pragmatismo do presente. Enquanto um gigante local se retira para, quem sabe, buscar a merecida aposentadoria no INSS e curtir uma vida mais reservada, a planície ferve.

Nos bastidores, a campanha já corre frouxa. Tem gente que chega jurando que ainda não veio, e gente que ensaia sair, mas que no fundo não vai a lugar nenhum. Há até raposa velha se arriscando por baixo da vegetação flutuante, tateando o lodo para ver se encontra alguma traíra desgarrada para fisgar e agregar à sua campanha. Só não sabemos ainda se essa traíra vai ser melhor frita ou ensopada — no final, é o eleitor quem decide o cardápio.
E por falar em movimento nos aguapés, Canoas agora tem até candidato com uma “Missão” de nível nacional! O Coronel Aroldo Medina, militar da reserva e morador da nossa cidade, foi anunciado como vice-presidente na chapa de Renan Santos (do partido Missão) à Presidência da República. Medina, que já passou por quatro partidos (PFL, PRP, PSD e PV) e coleciona suplências nas eleições de 2014, 2018 e 2024, agora dá um salto da busca por uma vaga no Planalto Central diretamente para o plano federal. Resta saber se essa “Missão” vai decolar ou se será mais um capítulo da nossa agitada história local.

Como o entra e sai de candidatos está mais movimentado que a nossa velha estação férrea “aposentada” em horário de pico, eu prefiro não me arriscar a apresentar uma lista definitiva. Melhor sentar no banco da estação, ver o trem passar e observar esses personagens históricos e novos aspirantes cruzarem a linha de chegada. Afinal de contas, na política, nunca saberemos as verdadeiras razões que levam alguém a fazer alguma coisa… ou coisa nenhuma, né?
DE METRÓPOLES
O incrível caso da Lei que “Aconselha” (e a saúde que espera)
Se você acha que a sua relação amorosa é cheia de discussões inúteis que não levam a lugar nenhum, é porque você ainda não leu sobre a votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) na Assembleia Legislativa.
É um verdadeiro monumento ao “fazer barulho para tudo continuar exatamente igual”.
A união dos opostos por… absolutamente nada!
Em um raro momento de eclipse político, a direita e a esquerda se uniram contra o modelo de concessão de rodovias do governo Eduardo Leite. O resultado dessa união histórica? Uma emenda prevendo que as obras sejam executadas, preferencialmente, por conta própria do Estado.
E o que significa “preferencialmente”? O deputado Joel Wilhelm (PP), um dos autores da emenda, explica com uma sinceridade que quase nos faz chorar de rir:
“Preferencialmente tu não obriga (…)”
Maravilhoso! Nossos deputados gastaram luz, ar-condicionado, salário e saliva para aprovar uma lei que funciona como um conselho de mãe: “Olha, meu filho, eu prefiro que você não gaste com jantares caros, mas se quiser gastar, a escolha é sua”.
Não à toa, o líder do governo, Frederico Antunes (PSD), mandou a real sem nenhuma cerimônia: a emenda é simplesmente inútil. Mas a oposição seguiu firme no orgulho de ter aprovado um grande e pomposo “tanto faz”.
Prioridades são prioridades (só que não)
Enquanto a bancada se estapeava para aprovar uma recomendação inofensiva sobre rodovias, a oposição de esquerda tentou garantir o repasse constitucional de 12% da receita para a saúde já em 2027. Afinal, existem cerca de 700 mil gaúchos na fila de espera do SUS.
A resposta do plenário? “Sem sucesso.”
Para a saúde de 700 mil pessoas, o plano do governo é empurrar com a barriga até 2030, em suaves parcelas anuais acordadas com o Ministério Público. Afinal de contas, para que pressa com quem está doente na fila se a gente pode passar a tarde inteira debatendo se o próximo governador deve ou não ter a “possibilidade de escolher” privatizar uma estrada?
Moral da História
A discussão da LDO é a prova definitiva de que a nossa política funciona como o WWE (telecatch): os combatentes sobem no ringue, gritam, fazem caras e bocas, ameaçam quebrar cadeiras na cabeça uns dos outros, mas no final do show, todos tomam banho no mesmo vestiário, o roteiro continua o mesmo e o público volta para casa de ônibus, pagando pedágio caro e esperando na fila do postinho de saúde.
Resumo da LDO gaúcha:
Muita pressão, pouca diretriz e orçamento que é bom… bom, esse já foi fatiado faz tempo.








