PICOTANDO A POLÍTICA | O engraxate sumiu e a cidade ficou como um sapato velho

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6h da matina. Abro os olhos, tateio o peito… Ótimo, ainda não morri dormindo. O dia promete. Hoje tem gravação do AldeiaCast para falar de “Inovação e seus resultados”. Bonito, moderno, futurista. Mas confesso: meu espírito amanheceu revoltado. Que heresia marcar essa gravação justamente no horário de Argentina e Inglaterra pela Copa do Mundo! Aquilo nunca será apenas um jogo de futebol. É guerra, é revanche, é literatura pura. Quem não se arrepsia ao lembrar de Maradona e a sua sacrossanta La Mano de Dios enganando a pompa britânica?

Mas, enquanto alguns usam as mãos para fazer história ou trapacear com genialidade, o assunto do nosso Politicando de hoje é sobre outras mãos. Mãos calejadas, pretas de graxa, que simplesmente sumiram do mapa: os engraxates.

Onde foram parar os artistas do pincel e da escova que batiam ponto no Café Imperial do Amadeu Mota, na lanchonete do Seu Baldo ou no clássico Luso Brasileiro? Os mais audaciosos e notívagos ainda invadiam os bares da noite, caçando os últimos clientes ébrios que queriam voltar para casa com o pisante brilhando.

Eu sempre fui um sujeito caprichoso com os meus sapatos. Saía pela manhã tinindo e, ao menor sinal de poeira, procurava um engraxate. Ficava ali, hipnotizado, observando o afinco daquele trabalhador e a batidinha da escova na caixa, para trocar o pé. O ritmo da flanela estalando no couro parecia música. Quem nunca viveu esse ritual que atire a primeira escova! Era a marca registrada dos 60+, dos 70+, dos 80+. Como esquecer o falecido prefeito Hugo Lagranha e seus lendários sapatos “bicudos” sempre espelhados? Ou a elegância de Zezé Machado Filho, Luís Possebon e do adorável vagabundo Antonio Jesus Pfeil — o verdadeiro, que fique claro!

Essa arte de dar brilho tem história. Reza a lenda que o ofício nasceu em 1806, na França, quando um soldado poliu as botas de um general com tanto esmero que ganhou uma moeda de ouro em troca. Respeito pago com ouro. Mais tarde, em 1890, Morris Kohn inventaria a famosa cadeira elevada, que dava ao cliente a sensação de estar em um trono, mesmo que por dez minutos. O ofício cruzou o oceano com os imigrantes italianos no fim do século XIX e moldou a estética das nossas cidades.

Hoje, a profissão quase sumiu. Culpamos a modernidade, a invasão dos tênis casuais e a pressa do dia a dia. É o preço da tal “inovação” que vou debater mais tarde no podcast. Podemos até lustrar o sapato em casa, mas convenhamos: nunca terá a mesma alma, o mesmo garbo.

E é aqui que a analogia com a nossa política local se torna inevitável e dolorosa.

Ao extinguirem os engraxates do nosso cotidiano, os homens públicos nos acostumaram com o desmazelo. Quando deixamos de nos importar com o brilho dos nossos sapatos, passamos a aceitar, passivamente, o estado deplorável das nossas ruas e passeios públicos. Afinal, para que ter sapato limpo se a calçada está esburacada e coberta de lama?

A grande e trágica diferença é que, ao contrário dos nobres engraxates, a cidade não some. Ela não pega a sua caixinha de madeira e vai embora. Pelo contrário: ela fica. Fica e sucumbe. Definha à luz do dia sem o devido cuidado, enquanto os políticos transformam os poderes em um ringue de boxe e de egos inflados.

Nossos políticos passam o dia trocando caneladas, alimentando brigas partidárias que não pavimentam uma rua, não limpam um bueiro e não trazem um centavo de desenvolvimento. É uma disputa de poder estéril, onde o único objetivo é derrubar o adversário, enquanto a cidade real acumula poeira, lixo e buracos.

Enquanto SS. AA. (Suas Excelências) desfilam em gabinetes acarpetados, alheios à realidade, quem sofre é a população. Sem manutenção, sem carinho, o cidadão comum vai se tornando um sapato velho: rachado, descolado, esquecido no fundo do armário e pisando no barro de uma política que perdeu completamente o brilho.

Está na hora de parar de chutar o balde e começar a engraxar essa cidade. Menos briga de bastidor, senhores, e mais flanela no lombo dos problemas reais. Caso contrário, não haverá Mano de Dios que nos salve do rebaixamento definitivo.

3 Respostas

  1. Gosto de me pentear olhando o reflexo do cabelo no brilho do sapato (quando não perco eles nos buracos da Corsan) 😂 quando tu te revolta, tu te inspira e quem ganha, somos nós

  2. Então, sobre os engraxates, quando diretor de Emprego Trabalho e Renda, tentei na minha humilde vontade, montar 2 (duas) cadeiras de engraxate ali na praça hoje tomada por desocupados , tendo como parâmetro as da praça da Alfândega na capital , porém não fingou, talvez por falta de vontade política ou outros problemas…..

  3. Havia um menino que engraxava os sapatos no centro usando um terno e gravata ganhos de alguém. Alguns números maior , é verdade. Mas dava uma dignidade ao ofício. Acho que foi o último engraxate de caixinha no centro de Canoas. Como bancário nos anos 80 na capital fui frequentador das cadeiras elevadas da praça da alfândega onde sentava pra ler o jornal e saia com meu “passo double” brilhando enquanto alguém gritava ao longe : “Olha a loto no escuro”. Tempo bom pré -smart fone.

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