PICOTANDO A POLÍTICA | O herói sem capa e o rio que desce do céu

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*Por O Herói, o cabra que não teve tempo de correr.

 

Dizem que hoje é dia de inventar uma bobagem qualquer, daquelas bem ilustrativas, só para prender a atenção do leitor logo no primeiro parágrafo.

Mas, quer saber?

A realidade por aqui anda tão surreal que nem a ficção mais inspirada consegue competir.

Do meu lado esquerdo da tela do computador, brilha a imagem do “Coringa”. Do lado direito, surge imponente o “Batman”. Olho de um para o outro e fico me perguntando: afinal de contas, quem é o vilão nessa história? Quem é o verdadeiro antagonista desse roteiro repetitivo?

Porque o herói… ah, o herói eu já sei muito bem quem é.

O herói é o “cabra”. Aquele sujeito figurativo, mas de carne, osso e alma, que simplesmente não teve tempo de correr e acabou alcançado pela força das circunstâncias. O herói simbólico desta nossa terra são os moradores de várias cidades. Aquelas pessoas que, há exatos dois anos — na fatídica catástrofe que assolou o Rio Grande do Sul. Em Canoas, especialmente, viram suas vidas reviradas do avesso quando as águas barrentas invadiram o lado Oeste da nossa Aldeia.

Hoje, essas mesmas pessoas estão com os olhos cravados no céu. E o que o céu responde não é nada animador.

Se abrirmos os portais de notícias para ver a previsão do tempo para este fim de semana e os próximos dias, o cenário é de alerta máximo. A meteorologia avisa que o Rio Grande do Sul está sob a influência de um “rio atmosférico” — um corredor de umidade que traz o calor abafado da Amazônia direto para o Sul, servindo de combustível para um sistema de instabilidade severa. Entre este sábado e a próxima terça-feira, o Inmet e a Defesa Civil do Estado emitiram alertas de perigo para tempestades violentas, queda de granizo e ventos que podem passar dos 90 km/h. O acumulado de chuva previsto para os próximos dias é assustador, podendo alcançar de 150 a 300 mm em vários pontos do Estado.

Em Canoas, depois de uma tarde atipicamente quente de julho, o vento já começou a apertar lá fora. As nuvens carregadas se desenham no horizonte e a comunidade se une em uma única e silenciosa prece: rezam juntos para que a força da natureza não coloque, mais uma vez, as proteções da cidade à prova.

Porque todos ali sabem, no fundo do peito, da verdade incômoda: muito pouco foi feito nesses dois anos no Estado. A única coisa que de fato está represada, firme e intocada, é o dinheiro nos cofres do Governo do Estado que deveria ser liberado para  as obras de reconstrução e prevenção.

Enquanto isso, na tela, os Coringas explicam, cheios de justificativas técnicas e termos rebuscados. Os Batmans dão opinião, apontam culpados e posam de salvadores da pátria nas redes sociais. Mas o “cabra”, o herói real que está lá na ponta, não tem para onde correr. Ele sabe que, se a água não entrar de fora para dentro, há ainda o fantasma do escoamento e da drenagem urbana, cujas obras seguem em passos de cágado, arrastadas pela burocracia.

Batmans e Coringas estão em polvorosa campanha. Há uma eleição batendo à porta e ninguém quer perder a “boquinha” ou o espaço no poder. Temos candidatos de todas as espécies e plumagens já desfilando pelas ruas de Canoas, sorrindo para fotos e pedindo votos, ignorando que o solo sob seus sapatos de grife ainda guarda a umidade da tragédia passada.

Ops… o vento apertou forte lá fora agora. Vou até a janela dar uma olhada.

Escrevo do conforto de um lar seguro, mas meu pensamento voa longe. Tenho amigos queridos que precisaram voltar a morar no lado Oeste da cidade. Eles não tiveram escolha; não tinham para onde ir. É lá que eles resistem, limpam a poeira e rezam a cada trovão.

Fica aqui o aviso expresso aos Batmans e Coringas de plantão: não ousem culpar o El Niño, a atmosfera ou as mudanças climáticas pelo que está por vir. A culpa real atende pelo nome de descaso com o bem público. A culpa é do dinheiro que veio e continua misteriosamente “represado” nos cofres do Governo do Estado. A culpa é do eterno cabo de guerra entre justiça, governantes e ambientalistas, que travam disputas burocráticas infinitas nos gabinetes enquanto nossas bacias hidrográficas imploram por desassoreamento e limpeza.

Não, senhores leitores. Esqueçam as capas pretas e as maquiagens coloridas. Não existem heróis nos gabinetes climatizados do poder. O único herói que existe é o “cabra” da vida real, que resiste bravamente sem ter para onde correr, torcendo para que a chuva passe e que a dignidade, um dia, finalmente transborde.

 

3 Respostas

  1. A prevenção deveria ter acontecido antes da enchente de dois anos atrás. Os diques não resistiram porque foram mal feitos, mal projetados e nunca revisados. Depois de destruídos, precisam ser totalmente refeitos e ampliados e isso leva muitos anos. Na maior economia do mundo, o Katrina foi menos devastador e levou dez anos para que o governo americano reconstruísse os estragos. Não temos esse tempo. Precisamos dar prioridade para a Defesa Civil, reorganização habitacional e auxílios. Deus ajude a todos nós!

  2. É vergonhosa a situação que se encontra atualmente o nosso Estado e subsequentementelem nossa cidade, pois o descaso do poder público é claro, evidente e pior continuamos sendo esquecidos e qdo. O governo Americano fala que vidas humanas importam, os nossos governos continuam fingindo de cegos e nos deixando a mercê do que está acontecendo..Até qdo. vamos ter que suporta tamanha NEGLIGÊNCIA?

  3. Em Canoas, temos vereadores com mais de cinco mandatos, isto é mais de 20 anos, antes de 2024, advento das enchentes, muitos desses vereadores sequer sabiam quantos diques tinham, muito menos onde ficavam, aliás, me atrevo a dizer que se fossem levados vendados até os diques, não saberiam onde estão, muito menos retornar para o centro da cidade..😂😂.

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