PICOTANDO A POLÍTICA | “Quantas criancinhas a ambição política mata, de subnutrição, por vias indiretas?”

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O texto intitulado “Política e verdade” e datado de 2 de setembro de 1994, escrito por Canabarro Tróis Filho — O Tonito —  em um Editorial da Folha de Canoas no livro  Ideias Pela Democracia, funciona como um espelho temporal fascinante. Escrito às vésperas de uma das eleições presidenciais mais marcantes do Brasil (o primeiro embate consolidado pós-Plano Real), o artigo evoca preocupações que, longe de terem sido superadas, adquiriram novas e complexas roupagens no cenário político contemporâneo.

Abaixo, analisamos o que mudou, o que piorou e onde ainda podemos encontrar sementes de esperança para o amanhã.

O que mudou?

Da Imprensa Centralizada ao Caos Algorítmico

Em 1994, o editorial defendia que o papel principal da Comunicação Social era ajudar na formação de uma “opinião pública esclarecida, lúcida e forte”. Naquela época, a informação era centralizada: poucos jornais, emissoras de rádio e canais de televisão ditavam o debate público. Hoje, a dinâmica mudou radicalmente. O monopólio da informação foi quebrado pela internet e pelas redes sociais. Qualquer cidadão é um potencial emissor de conteúdo. No entanto, o papel de “esclarecimento equidistante” que o jornal reivindicava para si perdeu espaço para modelos de negócios digitais baseados no engajamento, que frequentemente monetizam a indignação e criam bolhas informacionais.

A Ferramenta de Checagem: Do Arquivo de Papel ao Fact-Checking Digital

O texto de 1994 sugeria que as entidades comunitárias fizessem uma “simples consulta aos jornais das épocas trazidas ao debate pelos candidatos” para desmascarar os mentirosos. Naquela época, isso exigia ir a bibliotecas, manusear arquivos físicos ou microfilmes. Hoje, temos a biblioteca do mundo na ponta dos dedos. A checagem de fatos (fact-checking) é instantânea, e vídeos antigos de políticos contradizendo suas falas atuais viralizam em segundos. A informação está disponível, mas o desafio agora não é o acesso, mas a disposição do público em aceitar a verdade quando ela contraria suas crenças pessoais.

O que piorou?

A Escala do “Festival de Falsidades”

O autor do artigo queixa-se de estarmos assistindo a um “festival de falsidades, deslavadas mentiras, jogadas aos ouvidos e aos olhos de um povo sem memória”. Se em 1994 a mentira política dependia do palanque e do horário eleitoral gratuito, hoje ela é industrializada. A desinformação tornou-se um ecossistema profissionalizado, alimentado por inteligência artificial, deepfakes, disparos em massa e manipulação psicológica por meio de dados de navegação. A mentira contemporânea não tenta apenas convencer de uma falsidade; ela tenta destruir a própria noção de que existe uma verdade consensual.

A Polarização e a “Ambição do Poder” como Religião

O texto resgata a frase clássica de Gonçalves de Magalhães: “De todas as paixões que agitam a sociedade, a mais funesta e sanguinária é a ambição do poder”. Esta ambição hoje se manifesta em uma polarização afetiva extrema. O debate político perdeu o caráter de disputa de projetos de país para se transformar em uma guerra cultural existencial, onde o adversário não é alguém com ideias diferentes, mas um “inimigo” a ser aniquilado. O pragmatismo cedeu lugar ao fanatismo.

A Consequência Invisível: A Subnutrição e o Abandono

O questionamento final do texto continua dolorosamente atual: “Quantas criancinhas a ambição política mata, de subnutrição, por vias indiretas?”. O que piorou foi a nossa anestesia social diante dessas tragédias. A desigualdade estrutural, a fome e a precarização dos serviços públicos básicos continuam sendo o preço pago pelas decisões de gestores mais preocupados com a manutenção do poder e com o teto de gastos eleitorais do que com a dignidade humana.

Que esperança podemos ter?

Apesar do diagnóstico severo, o texto encerra com uma convocação que ainda ecoa como a nossa maior fonte de esperança:

“Ou o povo assume seu verdadeiro tamanho, politicamente, ou o Brasil vai demorar muito para dar passos decisivos rumo ao destino que merece.”

A nossa esperança reside exatamente na capacidade latente de o “povo assumir seu tamanho”. Ela se manifesta de formas muito mais dinâmicas hoje do que em 1994:

Voz às Minorias e Mobilização Descentralizada: Grupos historicamente marginalizados (comunidades periféricas, povos originários, movimentos negros e LGBTQIA+) hoje possuem ferramentas de auto-organização e comunicação direta que antes eram censuradas ou ignoradas pela grande mídia de 1994. A luta por direitos tornou-se mais visível e plural.

Novas Formas de Vigilância Cidadã: A sociedade civil organizada de hoje conta com portais de transparência, dados abertos e ferramentas de inteligência coletiva para monitorar mandatos, rastrear emendas parlamentares e auditar contas públicas de forma muito mais ágil do que no passado.

Resiliência Democrática: Passamos por crises severas, tentativas de ruptura e sobressaltos institucionais profundos nas últimas décadas. O fato de a sociedade continuar debatendo a “política e a verdade”, de forma apaixonada e insistente, prova que a democracia brasileira desenvolveu anticorpos robustos.

A lição que fica de 1994 é que a democracia não é um estado permanente, mas um processo diário de vigilância e participação. O tamanho político do povo brasileiro não é definido pelos políticos que o governam, mas pela insistência incansável de sua sociedade em exigir que a verdade e a justiça social sejam a base de sua representação.

LEIA O EDITORIAL DE 1994

Política e verdade

02 de setembro de 1994 — Por Canabarro Tróis Filho — Folha de Canoas

Este jornal está, sinceramente, engajado na campanha eleitoral como veículo de esclarecimento equidistante, emitindo suas opiniões e, visando uma alteração positiva, propõe algumas alternativas.

Não agisse dessa forma, este jornal não estaria cumprindo com o principal papel da Comunicação Social, que é o de ajudar na formação de uma opinião pública esclarecida, lúcida e forte, capaz de “empurrar” e apoiar as autoridades públicas na solução dos problemas da coletividade. Veículo sem opinião, clara, explícita, é como máquina de copiar, e de insinuar opiniões nas entrelinhas e na pauta de suas matérias.

Estamos preocupadíssimos com a hipocrisia, ou incoerência, revelada por inúmeros partidos e seus candidatos. Cada um manifesta posições contra situações e problemas que, quando no governo, não alteraram nem resolveram. Estamos assistindo [hoje]² a um festival de falsidades, deslavadas mentiras, jogadas aos ouvidos e aos olhos de um povo sem memória.

Gostaríamos de ver a sociedade organizada (no bom sentido) operando para desmascarar os mentirosos, ainda antes de 3 de outubro. As entidades comunitárias, e outras igualmente descomprometidas, poderiam resgatar as verdades pela simples consulta aos jornais das épocas trazidas ao debate pelos candidatos.

“De todas as paixões que agitam a sociedade, a mais funesta e sanguinária é a ambição do poder” — disse o grande escritor Gonçalves de Magalhães, Domingos José (Rio de Janeiro, 1811 — Roma, 1882). O autor de “Suspiros Poéticos”, marco do romantismo no Brasil, utilizava uma linguagem talvez anacrônica para os dias de hoje. Porém, a sua afirmativa é verídica. Quantas criancinhas a ambição política mata, de subnutrição, por vias indiretas?

Ou o povo assume seu verdadeiro tamanho, politicamente, ou o Brasil vai demorar muito para dar passos decisivos rumo ao destino que merece.

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