Dizem que a democracia é uma festa. Se for, a edição das eleições de 2026 promete ser aquele tipo de evento corporativo em que a comida está duvidosa, o refrigerante está sem gás e o garçom insiste em te servir algo que você jurou que nunca mais colocaria na boca.
O grande dilema do eleitor contemporâneo não é mais decidir quem vai guiar o país rumo ao futuro radiante. Isso ficou nos livros de história ou nas peças publicitárias de trinta segundos. O verdadeiro desafio de 2026 é gastronômico-digestivo: conseguir olhar para a tela da urna sem sentir um refluxo imediato.
A expressão popular é precisa: “Esse candidato não me desce”.
E não desce mesmo. Nem com água, nem com reza braba, nem acompanhado daquele cafezinho passado na hora do santinho. A lista de opções parece ter sido elaborada por um chefe de cozinha cujo único objetivo na vida é causar azia coletiva.
De um lado do cardápio, temos o Messias da Vez. Ele sorri com trinta e dois dentes impecáveis, usa terno sob medida no calor de quarenta graus e fala com a entonação de quem acabou de inventar a roda. Promete empregos, prosperidade e moralidade reforçada. Mas a gente olha bem nos olhos do sujeito e percebe: não desce. É artificial demais, parece um holograma programado por inteligência artificial para dizer exatamente o que a pesquisa mandou. Engolir essa conversa mole exige uma elasticidade estomacal que o cidadão comum perdeu lá por volta de 2018.
Do outro lado, surge o Troglodita Performático. Ele não fala, brada. Não argumenta, xinga. Promete resolver problemas complexos da macroeconomia na base do grito e da lacração nas redes sociais. A proposta dele para a saúde? “Vamos acabar com isso daí.” Para a educação? “Acabar com aquilo lá.” A retórica dele desce queimando o esôfago, deixando um rastro de bile e dor de cabeça. Votar nele seria como tomar um copo de vinagre puro em jejum e fingir que é suco de detox.
E para quem busca o caminho do meio, o chamado candidato de centro, a situação não melhora. O sujeito tem o carisma de uma caixa de papelão molhada no acostamento. Fala frases de efeito que não dizem absolutamente nada, flutua no ar como um fantasma institucional e muda de ideia a cada mudança na direção do vento. Engolir o candidato moderado é como tentar comer aveia crua sem leite: engasga na metade e dá uma preguiça profunda de continuar mastigando.
Chegamos, portanto, ao cume da sofisticação política: o voto por eliminação sumária.
A fila da seção eleitoral em 2026 não será mais um local de debate de propostas, mas uma grande sala de espera de clínica gastroenterológica. Os eleitores trocarão olhares cúmplices, segurando suas respectivas caixinhas de antiafecções e antiácidos.
— E aí, vizinho, já decidiu? — Pois é… O Fulano não me desce de jeito nenhum. O Ciclano me dá ânsia só de ouvir a voz. Acho que vou ter que engolir o Beltrano, mas já deixei o Eno preparado na bolsa.
O ato de votar virou o jogo do Reality Show da Rejeição. A gente não escolhe o melhor; a gente elimina os que causam indigestão fulminante até sobrar aquele que provoca apenas uma leve queimação no peito. É a vitória do menos pior, o triunfo do pelo menos esse não me faz querer mudar de planeta.
No fim das contas, no domingo de eleição em 2026, o gesto solene de digitar os números e apertar a tecla CONFIRMA virá acompanhado de um longo suspiro e uma careta inevitável. A democracia continuará de pé, forte e soberana. Mas o eleitor, coitado, sairá da zona eleitoral direto para a farmácia mais próxima, pedindo ao balconista a maior dose de Omeprazol que a legislação permitir.
Afinal, engolir sapo faz parte do dever do cidadão, mas ninguém disse que a gente precisa fazer isso de estômago vazio.









3 Respostas
Cirúrgico! Tem que ter muito estômago para ficar escolhendo sempre o “menos pior”
Então dobradinha onde só um tem apetece!!!! ….
Por isso que sou seu fã. Essa é uma crônica para leitores do Brasil inteiro. Você é um dos poucos “cabeções” de Canoas, que ainda estão por aqui. Nada a comentar.