Confesso que perdi o encanto. Aquela paixão vibrante pela política, o frio na barriga diante das urnas e a crença de que uma eleição poderia, num passe de mágica, virar o país de cabeça para cima (ou para baixo, a depender da perspectiva), foram dando lugar a um ceticismo quase crônico. O colunista de hoje não é mais aquele militante entusiasmado de outrora.
A culpa, se é que há culpa em enxergar a realidade sem lentes cor-de-rosa, talvez venha da mania de olhar para o retrovisor. Outro dia, folheando os velhos recortes de jornal e revisitando o livro Ideias pela Democracia (e não Demografia, ressalte-se), que compila os brilhantes editoriais de Antônio Canabarro Tróis Filho, o saudoso Tonito, na Folha de Canoas, tive uma epifania incômoda: o tempo passa, mas em muitas coisas, o Brasil apenas gira em falso. Nada mudou tanto assim.
Voltemos a setembro de 1994. Tonito, com a precisão de um cirurgião, analisava uma pesquisa de intenção de voto no Jornal do Comércio. Fernando Henrique Cardoso liderava, é verdade. Mas o que saltava aos olhos do Mestre Tonito não era o favoritismo tucano embalado pelo frescor do Plano Real, e sim uma assustadora “maioria indecisa”. Quase 48% do eleitorado não sabia em quem votar. Tonito alertava: o destino do país não estava nas mãos dos convictos, mas dessa massa silenciosa, flutuante, capaz de ser arrastada pelas “manchetes da bipolarização”.
Corta para setembro de 2026. Faltam poucas semanas para as eleições presidenciais. Ligo a TV, abro os portais de notícias e o que vejo? O fantasma de 94 nos assombra com vestes modernas. As pesquisas mais recentes – como as da Quaest, Atlas, BTG e Palver – mostram uma corrida acirradíssima e polarizada, com Lula e Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados em simulações de segundo turno.
E onde está a novidade? A novidade é que o eleitorado, embora pareça ter posições cristalizadas nas pontas, esconde um contingente vital nas entrelinhas. Nas pesquisas espontâneas (quando não se apresentam os nomes), o número de eleitores que declaram não saber em quem votar, ou que se dizem “indecisos”, chega a bater nos impressionantes 42% em alguns levantamentos da Quaest de setembro de 2026. A fatia de votos nulos e brancos continua robusta. Trinta e dois anos se passaram e, novamente, a “maioria silenciosa” de Tonito ditará as regras. O apelo à “independência de opinião” e à “avaliação crítica rigorosa” feito pelo jornalista em 1994 nunca soou tão urgente. O perigo de ser induzido pela bipolaridade continua sendo o roteiro principal do nosso teatro político.
Mas as semelhanças não param nas urnas. O bolso do cidadão é outro túnel do tempo. Em outro editorial genial de 1994, Tonito questionava: “Liberdade de quem?”. Ele expunha, com nomes e números cruéis (Fleischmann, Bombril, Copersucar), a formação de oligopólios que ditavam os preços no mercado. Uma falsa liberdade econômica onde os “donos” do mercado seguravam ou soltavam os preços a seu bel-prazer, esmagando o consumidor.
Olho para a economia em 2026 e o eco de Tonito ressoa nas gôndolas dos supermercados. Hoje, discutimos a concentração de mercado das grandes redes de varejo alimentar (onde um punhado de empresas controla quase metade do faturamento no Brasil) e o peso absurdo do modelo agroexportador que, ironicamente, encarece a comida na mesa do brasileiro. A inflação de alimentos continua sendo o nosso calcanhar de Aquiles estrutural. Os gigantes de hoje podem ter nomes diferentes, podem operar em um mundo digitalizado e com logística global, mas a essência do alerta de 1994 permanece intacta: a falta de concorrência real e o poder dos oligopólios (ou “donos do mercado”, como diria Tonito) continuam sobrepondo-se à vontade dos governantes e espoliando a massa consumidora. O clamor por governos que “harmonizem as atividades produtivas” e penalizem abusos é o mesmo.
A história é cíclica, mas às vezes ela é apenas teimosa. O desencanto com a política vem dessa constatação de que trocamos os atores, modernizamos o palco, mas o roteiro das desigualdades econômicas e da manipulação do eleitorado indeciso segue em cartaz.
E por falar naqueles que já foram os atores principais, o tempo tem seu peso inexorável. Fernando Henrique Cardoso, aquele mesmo candidato que surfava o favoritismo apontado por Tonito naquelas pesquisas de 94, hoje assiste ao cenário político brasileiro das sombras. Aos 95 anos de idade (completados em junho deste ano), FHC encontra-se totalmente afastado da vida pública, lidando com os avanços do Mal de Alzheimer, que comprometeram severamente suas funções cognitivas e autonomia, levando a justiça a decretar sua interdição civil. Um triste ocaso para a figura que definiu uma era inteira do país, e um lembrete melancólico de que o poder, assim como as eleições e os ciclos econômicos, é sempre efêmero diante do peso do tempo.
Fica a lição do velho Tonito: as aparências podem enganar as pesquisas, as manchetes podem tentar nos induzir, mas a verdadeira liberdade só existe quando não somos reféns nem dos “donos do mercado” na prateleira, nem dos “donos da verdade” nas urnas. Pena que, quase três décadas depois, ainda estejamos tentando aprender isso.

ABAIXO, OS DOIS EDITORIAIS NA INTEGRA
A maioria “indecisa”
13 de setembro de 1994
“O candidato Fernando Henrique Cardoso ainda venceria no primeiro turno, caso a eleição fosse hoje, pois mantém uma diferença de 6,4% a mais, somados aos votos de todos os demais candidatos”. (Jornal do Comércio, na capa da edição do dia 9 deste mês).
Em sua página central, o JC estampa várias tabelas. Na de Intenção Espontânea de Voto, por variáveis socioeconômicas, temos 47,4% de quem não sabe em quem votará e 5,9% de quem votará em branco ou anulará seu voto. Na tabela de intenção por variáveis geográficas, temos os mesmos percentuais. Nas tabelas de Voto Estimulado, persistem os mesmos percentuais: 47,4% de quem ainda não sabe em quem votará e 5,9% anulará o voto ou votará em branco.
No caso das pesquisas relativas às eleições de 3 de outubro vindouro, já não podemos usar a expressão “maioria silenciosa”, para designarmos a massa eleitoral que realmente decide os pleitos e que jamais é consultada com antecedência. Temos, atualmente, uma maioria “indecisa” cujo potencial poderá decidir o destino do país em 3 de outubro, a partir da hipótese de que a unanimidade das pesquisas, apontando para o candidato Fernando Henrique Cardoso como favorito, não estejam espelhando a vontade oculta do eleitorado. Ou o favorito conquista também essa maioria, ou seu opositor mais próximo a conquista, bipolarizando, satisfazendo o gosto da chamada grande imprensa.
O fundamental é que o eleitor possua independência de opinião, graças a uma avaliação crítica rigorosa dos candidatos, sem deixar-se induzir, sem deixar-se mudar de opinião pelas manchetes da bipolarização. Especialmente os eleitores dessa enorme faixa de 47,4% (quarenta e sete vírgula quatro por cento), que as pesquisas apontam como “indecisos” ou convictos, mas que não quiseram declarar suas preferências.
Liberdade de quem?
14 de setembro de 1994
“Os grandes empresários que se ‘comprometeram’ com a reportagem do Jornal do Brasil de não aumentar os preços de setembro são realmente decisivos nessa questão, porque são os donos do mercado na sua área de atuação. A Fleischmann Royal detém 40% das gelatinas, 20% de leite em pó (Glória), 30% de sucos concentrados (Maguary), biscoitos Nabisco; a Bombril Orniex detém 80% das espojas de aço e 30% dos detergentes líquidos; a Copersucar — União detém 65% do açúcar refinado e produtor de álcool e café; Arisco 27% das conservas vegetais, 10% do extrato de tomate, Sabão Biju, molhos e refrescos; e a Coca-Cola, que detém 95% dos refrigerantes Cola”. (Afonso Ritter — Economia e Negócios, 8/9/1994).
Esses números nos permitem deduzir que há “donos” do mercado. Por contraste, certamente não há liberdade de mercado, como apregoam os adeptos de uma liberdade que a eles somente convém. A massa consumidora paga as contas dessa supremacia sem freios.
De dedução em dedução, concluímos que os mesmos que garantem preços “congelados” são os que praticam preços abusivos; se não o são de fato, podem sê-lo, quando quiserem. O mesmo poder que têm para segurar preços, têm-no para soltá-los.
Esse poderio extraordinário, que se sobrepõe à vontade dos governantes, assusta as populações cuja representação política não tem sido forte. Para legislar no sentido de uma livre concorrência verdadeira, graças a estímulos aos pequenos e médios produtores, evitando-se a formação e a consolidação de oligopólios, monopólios e outras formas de supremacias, que, além de injustas quanto à competitividade, causam lesões aos direitos da maioria dos cidadãos. Aos governos cumpre harmonizar as atividades produtivas, penalizando a quem abuse, agredindo a liberdade.








