Para quem vive em Canoas e no Rio Grande do Sul, olhar para o céu com o cenho franzido deixou de ser um hábito de agricultor para se tornar um instinto de sobrevivência. As enchentes de 2024 rasgaram cicatrizes profundas em nossas ruas e na nossa saúde mental. Agora, com os meteorologistas anunciando a ameaça de um El Niño forte batendo à nossa porta, o medo é um inquilino indesejado em cada casa ribeirinha, em cada bairro historicamente alagadiço.
Diante desse cenário de angústia crônica e abandono, é preciso reconhecer quando a academia e a sociedade civil assumem o leme que o poder público tantas vezes abandona. O Fórum Ulbra 497 – Resiliência com Experiência, realizado ontem (14) em Canoas em parceria com o ICLEI, é um respiro de lucidez. O objetivo foi urgente e histórico: conectar quem estuda o clima extremo com quem precisa enfrentá-lo na linha de frente. Reunir na mesma mesa gestores de cidades como Blumenau, Petrópolis, Recife, Mariana e Brumadinho é um ato de coragem e necessidade.
É o que podemos chamar do doloroso “aprendizado da dor”.

A iniciativa da Ulbra não ficou apenas no debate. O lançamento de cursos práticos para capacitar agentes e voluntários de Defesa Civil mostra que a universidade entende a urgência. O presidente da Ulbra, Carlos Melke Filho, resumiu bem o espírito: “É uma iniciativa de construção da resiliência frente aos problemas tormentosos pelos quais já passamos… baseada naquilo que já vivemos, nos resultados do que enfrentamos e nas necessidades que projetarmos para o futuro”. Tudo para não passarmos por isso novamente, ou ao menos para minimizar o impacto em vidas.
Mas vamos ser brutalmente francos e usar a lente crítica que nos é peculiar: de que adianta um auditório no prédio 59 lotado de boas ideias e lições inestimáveis se, do lado de fora dos muros da universidade, a máquina pública se arrasta em uma letargia quase criminosa?
O Estado do Rio Grande do Sul, historicamente, fez e faz muito pouco sobre a questão climática e de prevenção de desastres. A cultura política gaúcha — e brasileira, de forma geral — é a do bote salva-vidas, não a da prevenção. O secretário-executivo do ICLEI América do Sul, Rodrigo Perpétuo, foi certeiro na sua análise: “Infelizmente, a cultura que ainda prevalece é a da resposta. (…) Mas se não pensarmos a resiliência a partir dos processos de desenvolvimento das cidades, não conseguiremos evitar os impactos”.
LEIA MAIS
E é exatamente isso. O governo estadual parece sofrer de amnésia seletiva: chora as mortes e os prejuízos na frente das câmeras quando a água sobe, mas corta verbas de prevenção e engaveta projetos de macrodrenagem assim que o sol volta a brilhar, esquecendo que o desenvolvimento urbano precisa contemplar o risco.
Ouvir os relatos da tragédia de Mariana e Brumadinho, trazidos na mesa de reconstrução, deveria causar calafrios em nossos prefeitos e governadores. Jairo Jorge, agora na Superintendência de Relações Governamentais e Cidades da Ulbra e idealizador do fórum, destacou que o aprendizado com essas cinco cidades é “inestimável”. E a lição mais dura que fica da lama de Brumadinho e das enchentes é que: há eventos extremos do clima, sim, mas há catástrofes que são inteiramente evitáveis. Quando o mar de lama engoliu Brumadinho, não foi a natureza agindo; foi a negligência humana, a falta de fiscalização, o lucro acima da vida.
Quando as cidades inundam de forma catastrófica, e quando o Estado ignora os alertas prévios — que a própria MetSul, presente no evento com a meteorologista Estael Sias, cansa de dar —, a culpa não é só da chuva. A falta de manutenção de diques, a ausência de casas de bombas eficientes, o déficit de treinamento para evacuação e a especulação imobiliária em áreas de risco transformam chuvas intensas em tragédias anunciadas. É a nossa própria versão de uma barragem se rompendo em câmera lenta.
Por mais eventos, simpósios e trocas de experiências que tenhamos — e eles são o primeiro passo vital —, nada disso fará sentido se não houver vontade política real para tirar o planejamento do papel. Não podemos continuar repetindo os erros do passado e do presente. A reconstrução do Rio Grande do Sul, como foi muito bem pautado, não se dará apenas com tijolos e cimento. A resiliência climática exige orçamento, exige obras estruturais, exige parar de autorizar loteamentos onde a água, por direito natural, vai passar.
Canoas e o Rio Grande do Sul têm agora, com iniciativas como a da Ulbra e do ICLEI, a teoria, a ciência e os exemplos dolorosos do que funciona e do que falha miseravelmente. A ameaça do El Niño é real e tem data marcada. A pergunta que fica para o Palácio Piratini é simples: vamos usar a experiência e a dor de quem já sofreu para construir um futuro responsável, ou vamos esperar a água subir para, mais uma vez, acionar os botes salva-vidas e dizer que fomos “surpreendidos pelo volume das chuvas”?
A paciência dos gaúchos, assim como nossos rios abandonados, já transbordou. A hora de cobrar é agora, antes do próximo temporal.









Uma Resposta
Não consigo ter nenhuma espécie de otimismo, infelizmente.