Pianista Karin Salz Lenzi estreia em Canoas o espetáculo “O poder das águas: Memórias do amanhã”, uma experiência imersiva que une piano clássico, inteligência artificial e uma homenagem às vítimas, aos voluntários e à força coletiva mobilizada durante as enchentes
Canoas, uma das cidades mais atingidas pelas enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024, quando mais de 150 mil pessoas foram diretamente afetadas, recebe, no dia 8 de agosto, a estreia do espetáculo “O poder das águas: Memórias do amanhã”. Gratuita, a apresentação propõe uma experiência imersiva que combina piano clássico ao vivo, projeções audiovisuais criadas por inteligência artificial e uma narrativa construída a partir das memórias da tragédia e da reconstrução. Ao integrar música, imagem e tecnologia, o espetáculo convida o público a mergulhar em uma jornada sensorial que ressignifica um dos momentos mais marcantes da história recente do Estado. A idealizadora do projeto é a pianista Karin Salz Engel Lenzi, que transformou dois anos de memória coletiva em um repertório inteiramente dedicado à água.
O espetáculo nasceu do impacto pessoal que a tragédia causou em Karin. “Esse espetáculo surgiu no ano das inundações. Eu já tinha uma ligação com a água, independentemente desse acontecimento, mas quando tudo aconteceu pensei que seria importante criar algo que resgatasse essa memória e, ao mesmo tempo, permitisse ressignificá-la. Queria que pudéssemos olhar para tudo isso por meio da arte, lembrar das pessoas que viveram e homenagear quem estendeu a mão para ajudar”, conta a pianista, que utiliza a música como linguagem para abordar temas contemporâneos e provocar reflexões.
Para construir essa narrativa, Karin escolheu um repertório que atravessa quatro séculos da música erudita e tem a água como fio condutor. Obras de Claude Debussy, Erik Satie, Frédéric Chopin, Ludwig van Beethoven e Maurice Ravel aparecem ao longo do concerto em composições que evocam rios, chuva, mares e movimentos da natureza, como “Une Barque sur l’Océan”, “Jeux d’eau”, de Ravel, e o célebre Prelúdio “Raindrop”, de Chopin. “A música é um meio extremamente potente para comunicar qualquer mensagem. Ela nos leva para um lugar mais sensível, profundo e cria conexões que muitas vezes as palavras não conseguem alcançar”, afirma.
As projeções audiovisuais, assinadas por Rafael Jukoski com apoio de inteligência artificial, dialogam em tempo real com a interpretação ao piano e com a direção artística de Néstor Monasterio. Música, imagens e iluminação constroem um ambiente sensorial que envolve o público e transforma o concerto em uma experiência imersiva, em que diferentes linguagens se complementam para despertar lembranças, emoções e reflexões. O conteúdo visual recria cenas inspiradas nas enchentes, mas também destaca um aspecto que, muitas vezes, ficou em segundo plano diante da dimensão da tragédia: a mobilização espontânea da população. “O que mais me marcou, além da tragédia, foi a união das pessoas se ajudando rapidamente. Fiz questão de trazer esse lado bonito para o espetáculo”, diz a pianista.
Para Karin, a proposta vai além da apresentação musical. “Não queria que as pessoas apenas assistissem a um recital. A ideia é que elas mergulhem nessa narrativa e vivam essa experiência com todos os sentidos. A música, as imagens e a tecnologia foram pensadas para que cada pessoa possa se conectar com essas memórias de uma forma muito pessoal e, ao mesmo tempo, coletiva.”
A escolha de Canoas para a estreia considera o contexto vivido pelo município após as enchentes de 2024 e a oportunidade de ampliar o acesso à programação cultural na região metropolitana. “É um projeto que articula arte, educação ambiental e mobilização social, levando essa experiência para um território onde iniciativas como essa circulam com menos frequência”, afirma Karin. A definição do município também dialoga com a realidade de parte dos colaboradores das empresas patrocinadoras, moradores de Canoas, Esteio e Gravataí, que foram diretamente impactados pelas enchentes.
O espetáculo é realizado por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura – Lei Rouanet, com patrocínio das empresas Inbetta e Hiperpan. A iniciativa reforça o papel do incentivo fiscal no apoio a projetos culturais que promovem o acesso gratuito à arte, à inovação e à reflexão sobre temas contemporâneos, ampliando o alcance de ações culturais em diferentes regiões do Rio Grande do Sul.
Além da dimensão artística, o espetáculo busca provocar uma reflexão sobre a relação entre sociedade, meio ambiente e futuro. Ao revisitar a memória da enchente sem se restringir à tragédia, a obra propõe um olhar voltado para a reconstrução, para a solidariedade e para a responsabilidade coletiva diante das mudanças climáticas.
Todo o espetáculo contará com recursos de acessibilidade cultural, incluindo tradução em Libras, audiodescrição e legendas, o que permite que a experiência imersiva seja compartilhada por públicos diversos. Para Karin, a acessibilidade não é um complemento, mas um princípio do projeto. “Acessibilidade é inegociável. Queremos que as pessoas possam viver essa experiência em igualdade de condições.”
A expectativa da pianista é que o espetáculo permaneça com o público para além da última nota. “Quero despertar uma emoção que leve à reflexão, mas também à esperança. Se as pessoas saírem dali olhando de outra forma para a água, para a solidariedade e para a nossa responsabilidade com o planeta, o espetáculo terá cumprido seu papel.”

Serviço
Espetáculo: O poder das águas: Memórias do amanhã
Quando: 8 de agosto de 2026, 19h.
Onde: SESC Canoas – Av. Guilherme Schell, 5340 – Centro, Canoas.
Entrada: Ingressos gratuitos, disponíveis no site do Sympla:
https://www.sympla.com.br/evento/o-poder-das-aguas-memorias-do-amanha/3513202
Ficha técnica: Karin Salz Engel Lenzi (Diretora Geral, concepção artística e piano), Néstor Monasterio (direção artística), Rafael Jukoski (design e projeções audiovisuais) e Daniel Bender Ludwig (produção executiva).
Realização: Projeto realizado por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura – Lei Rouanet, com patrocínio das empresas Inbetta e Hiperpan.







