NOSSOS VULTOS INVISÍVEIS | Seu Bastião, por uma memória afetiva e um olhar atento às ruas de Canoas

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O vento minuano não pede licença quando dobra as esquinas de Canoas. Ele sopra rasgado pelas avenidas, atravessa a Praça do Avião, rasteja pela Guilherme Shell e contorna a imponente torre da Paróquia São Luís Gonzaga. Nesses dias frios de inverno, a cidade encolhe os ombros, apressa o passo e se esconde sob casacos pesados. Mas há aqueles para quem o asfalto é o único teto e o vento, um visitante diário. São os nossos vultos invisíveis.

Se olharmos para a história de Canoas, veremos que as esquinas sempre foram habitadas por personagens que desafiaram a indiferença do tempo. Homens e mulheres que vagavam pelas calçadas, despertando em quem passava uma mistura complexa de sentimentos: o medo do desconhecido, o desdém apressado, a pena silenciosa e, por fim, a aura de lenda. Mas por trás de cada mito urbano, existe uma carne que sente frio, uma alma que carrega dores e uma história que merece ser contada.

Como não lembrar do ano de 1954, quando a Câmara de Vereadores parou para registrar o milagre cotidiano de Sebastião Coelho?

O velho “Seu” Bastião, o Diamante Negro de Canoas. Ex-escravizado nascido ainda em 1858, ele trazia no corpo marcado a memória dolorosa da escravidão e, no coração, uma fé inabalável. Quem viveu aquela época lembra da figura negra e hesitante cruzando a rua. Os automóveis — essas máquinas aceleradas de um mundo mecânico e sem amor — reduziam a marcha, e os motoristas guardavam o silêncio do respeito. Era o homem vencendo o tráfego; a santidade humilde parando o progresso metido a besta.

Seu Bastião morava nos fundos da Igreja de São Luís. Alimentava-se de pão e chá na Quaresma, alimentava a cidade com sua serenidade e, ao morrer centenário em 1958, virou devoção popular, biografia de padre e até boneco griô nas mãos criativas do mestre Júlio Cezar para ensinar as crianças sobre a herança negra da nossa terra. Bastião mostrou que a santidade pode caminhar de pés descalços pela poeira da rua.

A tradição de abrigar essas figuras míticas não parou no século passado. Canoas continuou a ser moldada por seus andantes. Como esquecer do Roque? Ou do Mudinho?

Figuras contemporâneas que viraram marcos geográficos e afetivos da cidade. “Ali onde o Mudinho costuma ficar”, “Aquele dia em que vi o Roque…” — assim se constrói o folclore urbano. Eles se tornam lendários apenas por existir, por resistirem à padronização de uma rotina acelerada. Mas transformar alguém em lenda não pode ser uma desculpa para torná-lo invisível em sua humanidade.

É fácil poematizar — alguns vão dizer que o termo está errado, mas foi exatamente o que quis dizer — passado e esquecer quem está na calçada hoje. No inverno, o romantismo da lenda se esfarrapa diante da realidade crua da hipotermia e da fome. A figura que causa receio ao transeunte apressado à noite é a mesma que precisa de um cobertor, de um prato de sopa quente e, acima de tudo, de um olhar de dignidade.

A história de Canoas é feita de trilhos, de indústrias, de praças e de aviões, mas é tecida, sobretudo, pela gente que por aqui pisou. Do “Seu” Bastião ao Roque e ao Mudinho, a cidade precisa aprender que o respeito que desacelerava os carros em 1954 é a mesma empatia que deve aquecer os nossos semelhantes em 2026.

Que o passado nos ensine a não olhar com desprezo ou medo para quem perambula pelas esquinas. Cuidar das pessoas — principalmente quando a geada cobre a grama — não é apenas um dever social ou assistencialista; é o único modo de apagar o remorso do descaso e garantir que a luz de humanidade que “Seu” Bastião deixou na primeira esquina de Canoas continue a iluminar os nossos corações.

3 Respostas

  1. Que privilégio te ter como canoense, mas principalmente porque tu vive vivendo Canoas! Enriquecemos culturalmente a cada texto!!! Obrigado por nos fazer cada vez mais apaixonados por nossa cidade!!

  2. Bela história, temos o quadro com sua foto em casa. Tive a oportunidade de escutar a história do Bastião contada por Luiza Northfllet Wagner em 2001, ela, veio morar em Canoas em 1924.

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