Preparem os rojões, afinem os jingles e tragam o remédio para dor de cabeça: está oficialmente aberta a temporada de caça ao seu voto! As ruas logo serão inundadas por panfletos que ninguém solicitou, carros de som em decibéis proibidos por tratados Internacionais e discursos inflamados sobre como o “outro lado” vai destruir o universo conhecido.
Mas, enquanto a militância engajada se prepara para travar batalhas épicas nas caixas de comentários das redes sociais, os números nos mostram um retrato fascinante da nossa democracia. Quando a régua é passada e os nomes são colocados na mesa para o primeiro turno, a vitrine de opções apresenta o seguinte cenário:
- Lula: 38%
- Flávio Bolsonaro: 31%
- Ronaldo Caiado: 4%
- Renan Santos: 4%
- Romeu Zema: 2%
- Augusto Cury: 2%
- Samara Martins: 1%
- Outros candidatos (Edmilson Costa, Clariana Barão, Hertz Dias, Leonardo Avalanche, Rui Costa Pimenta, Wilson Grassi): 0%
- Brancos, nulos e os que declaram não votar: 8%
- Indecisos com lista: 10%

Um quadro belíssimo de rivalidade, não é mesmo? O país dividido entre o fantasma do passado recente e a assombrações do presente. Porém, a verdadeira mágica acontece no momento em que se faz ao cidadão comum — aquele ser injustiçado que só quer pagar as contas no fim do mês — a pergunta mais simples de todas: “Em quem você pretende votar?”, sem entregar uma colinha com nomes.
É aí que o Brasil descobre o seu verdadeiro líder, isolado nas pesquisas. Com avassaladores 51% das intenções de voto, o campeão absoluto das urnas é o influente e coeso partido do “Não Sei”.
Mais da metade da população brasileira simplesmente deu de ombros. Meio país olhou para o ringue da polarização e respondeu com o mais sonoro, sincero e poético desinteresse. Enquanto os marqueteiros gastam milhões tentando convencer o povo de que esta é a “eleição das nossas vidas”, 51% do eleitorado está apenas pensando no preço do café e torcendo para que a propaganda eleitoral passe rápido.
O fenômeno é compreensível. Anos a fio ouvindo que a escolha é entre o apocalipse A e a catástrofe B geraram uma espécie de anestesia coletiva. A polarização atingiu um nível de perfeição tão absoluto que conseguiu a façanha de desidratar o próprio interesse pela política. As pessoas não estão apenas indecisas; elas estão profundamente exaustas. O “Não Sei” não é ignorância: é um grito de socorro em forma de apatia. É a constatação de que o eleitor cansou de ser tratado como torcida organizada de político.
Às vésperas de ver o país paralisar para a largada da campanha, a grande ironia é que a maioria absoluta da nação sequer quer saber quem são os atores principais dessa peça. Se o “Não Sei” pudesse assumir a faixa presidencial, venceria no primeiro turno, decretaria feriado permanente nos dias de debate e proibiria caixas de som de propaganda no raio de dez quilômetros de qualquer ser humano sensato.
Até lá, a caravana vai passar. Os candidatos continuarão tentando empurrar seus slogans garganta abaixo, firmes na certeza de que sabem o que é melhor para o povo. E o povo, por sua vez, continuará ostentando com orgulho seus 51% de abençoado e irônico desdém.









Uma Resposta
Não sei nem o que dizer,…