PICOTANDO A POLÍTICA | Crônica da terra do silêncio e dos Cavaleiros do Bulbo

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Por Piazotti da Barra do Quaraí

Viver em Canoas — a nossa peculiar Gotham City metropolitana — tem exigido dos cidadãos uma capa de herói e, acima de tudo, uma paciência de monge. À medida que nos aproximamos de mais um embate eleitoral decisivo, um fenômeno silencioso e incômodo se instala nas salas de estar, nos churrascos de domingo e nos grupos de mensagens: a autocensura. Para preservar a paz familiar e evitar que a sobremesa vire um tribunal, o eleitor tem preferido engolir as próprias opiniões.

O medo do conflito venceu o debate.

Essa perda progressiva da serenidade em eleições acirradas, onde cada voto é disputado no detalhe, nos remete a um clássico e absurdo episódio dos Simpsons. Nele, descobrimos que o Vovô Abe Simpson e seu irmão, Cyrus, passaram décadas sem se falar desde a Segunda Guerra Mundial.

O motivo? O avião de Cyrus caiu no Taiti e ele simplesmente “esqueceu” de avisar à família que estava vivo.

Olhando para a nossa realidade, percebemos que a política local tem nos transformado em versões reais de Abe e Cyrus. Estamos rompendo laços históricos, ignorando amigos de infância e silenciando parentes por desavenças que, vistas de fora, beiram o ridículo de um “esquecimento no Taiti”.

Na pressa de defender projetos políticos temporários, esquecemos de avisar uns aos outros que ainda somos sobreviventes do mesmo barco. Quem não lembra das enchentes de 2024?

Mas a política de Gotham não se faz apenas de silêncios; ela também se alimenta do espetáculo. E para quem observa atentamente os bastidores do poder local, o cenário atual é digno de uma refinada sátira histórica.

Se olharmos para a nossa Câmara de Vereadores como uma autêntica Távola Redonda, veremos que os nossos nobres Cavaleiros (os Edis) se preparam para dias de extrema turbulência. Na corte legislativa, onde debates técnicos deveriam ditar o tom, o cardápio do dia costuma ser imprevisível. E é exatamente aí que reside a graça sutil da nossa culinária política: sempre há um incansável bulbo — aquela figura ácida, de casca grossa e cheiro forte — empenhado em jogar um tempero pesado e indigesto no prato do dia, apenas para ver os Cavaleiros tossirem e o circo pegar fogo.

Em uma eleição que promete ser decidida nos detalhes mais minuciosos, resta saber se o eleitor de Canoas vai continuar se calando no almoço de domingo enquanto os “Cavaleiros do Bulbo” temperam o nosso futuro com a discórdia de sempre. Afinal, uma cidade que aspira ser grande não pode se render ao silêncio dos inocentes nem às palhaçadas da corte.

FALANDO DE METRÓPOLES | Lição de história para quem dorme no Salto

Fugir de debate achando que o jogo está ganho é a receita perfeita para o desastre no Rio Grande do Sul. Juliana e Zucco esnobaram o setor de proteína animal, mas esqueceram que o histórico do nosso estado é implacável com favoritos arrogantes. De 2002 para cá, o Palácio Piratini cansou de ser ocupado por candidatos que começaram o ano na lanterna. Foi assim com a arrancada de Germano Rigotto, com a vitória de Yeda Crusius, com a subida silenciosa de José Ivo Sartori e até com a primeira eleição de Eduardo Leite. Se os líderes continuarem deixando a cadeira vazia para Gabriel Souza e Marcelo Maranata discursarem sozinhos, vão acabar descobrindo da pior forma que, por aqui, a zebra não só corre por fora, como adora vestir a faixa de governador.

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