PICOTANDO A POLÍTICA | Enquanto o Titanic afunda, os músicos seguem tocando

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Por Piazotti da Barra do Quaraí

Abram-se as cortinas do palácio legislativo da nossa querida Gotham City metropolitana. Sob as luzes solenes da nossa Távola Redonda — a Câmara de Vereadores de Canoas —, os 21 Cavaleiros do povo se reúnem semanalmente. Ali, entre discursos inflamados e tapinhas nas costas, o destino da nossa nau canoense é debatido. E, justiça seja feita, há dias em que a Távola se veste de gala e sensibilidade.

Foi o que aconteceu na belíssima homenagem prestada à Velha Guarda Musical da Unidos do Guajuviras. Que momento grandioso! Uma honraria mais do que merecida a esse grupo resistente, fundado em 2022 por ex-presidentes, diretores, compositores, ritmistas e baluartes históricos que se recusaram a deixar o samba morrer. Contra os arrombamentos criminosos, contra o descaso e a destruição física da estrutura da escola, eles ergueram a Associação Beneficente e Cultural Velha Guarda Musical. Transformaram a dor do vandalismo em resiliência, provando que a cultura popular e o samba de Canoas têm a casca grossa e a alma leve. Uma salva de palmas genuína a esses heróis da nossa resistência cultural.

Mas, como este escriba que vos fala traz na mala a poeira da fronteira e o olho afiado de quem não se deixa cegar pelo brilho das medalhas, o contraste com a realidade das ruas bate à porta. A sessão solene foi linda, o batuque ecoou bonito, mas do lado de fora do palácio de Gotham, a cidade clama por socorro. E a velha máxima do trágico transatlântico se faz presente: enquanto o Titanic afunda, os músicos seguem tocando.

Os nossos 21 Cavaleiros, detentores dos votos de confiança depositados nas urnas eletrônicas como quem entrega uma bússola preciosa, parecem por vezes esquecer que a sua principal função é navegar em águas turbulentas. A fiscalização ativa é a única bússola capaz de guiar Canoas a um porto seguro. Quando os problemas urgentes do barco ficam paralisados, o cidadão canoense olha para a tribuna e sente aquela melancolia típica de quem foi ludibriado.

É impossível não lembrar da poesia do samba que ecoou na mente deste cronista. Ao olhar para as promessas de campanha daqueles que hoje sentam nas cadeiras estofadas da Távola Redonda, o desabafo do cidadão comum é quase um canto uníssono:

 

“Agora eu sei

Que o amor que você prometeu

Não foi igual ao que você me deu

Era mentira o que você jurou…”

 

O eleitor aprende, a duras penas, a “não crer em tudo aquilo que alguém nos diz num momento de prazer” — ou, no caso da política, no momento efêmero e sedutor da caça ao voto. O amor prometido em santinhos de papel colorido e jingles animados raramente sobrevive ao inverno das necessidades reais da periferia.

Mas a roda da história gira, e o calendário eleitoral é implacável. Logo ali adiante, a cobrança vem. E aí, senhores Cavaleiros:

 

“Na hora do sufoco, sei que você vai me procurar 

Com a mesma conversa que um dia me fez apaixonar

Por alguém de uma falsa consideração…”

 

Quando o sufoco das urnas chegar, os nobres vereadores voltarão aos bairros, com o sorriso ensaiado e o aperto de mão caloroso, tentando reconquistar o coração de uma Canoas cansada de falsas considerações.

Cabe aos nossos 21 representantes fazerem valer o depósito de confiança recebido. Menos discursos protocolares, mais fiscalização real. Menos desculpas e mais rumo. Afinal, a cidade não pode virar.

E se os políticos entendem que o povo esquecerá o descaso, o samba mais uma vez ensina a lição final: o eleitor vai perceber que aprendeu a viver sem depender de falsas promessas. No fim das contas, entre os erros dos governantes e o aprendizado das urnas, “há males na vida que vêm para o bem”.

Que a bússola seja retomada, antes que a água passe do limite do convés.

 

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