AIRES VIGEL | O Perfume da Madeira e a Brasa Acesa

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Às 5h53min, o relógio não despertou apenas para mais uma manhã. Despertou para um hiato na pressa do mundo. Hoje, as manchetes, os prazos e a correria do Notícias da Aldeia fazem silêncio. Há dias em que o dever mais urgente da alma não é reportar o cotidiano, mas honrar quem deu cor e sentido a ele.

Lá vou eu, mais uma vez, subir a lomba da Santos Ferreira. Um caminho que meus passos já conhecem de outras despedidas — desde aquele distante ano de 1989, quando vi partir o jovem aprendiz de diagramador que superou seu mestre com a pureza de quem não conhecia a maldade. Ao longo da jornada, vi muitos amigos dobrarem a esquina do tempo. Mas se alguém pensa que este percurso é pavimentado apenas de dor, comete um engano: esta subida é, antes de tudo, um ato de profunda gratidão.

O SORRISO DE AIRES VIGEL | A Despedida antecipada do churrasco que granjeava amigos

Afinal, como falar de Aires Vigel sem falar de vida?

Reduzi-lo a “um cara legal” seria imperdoável. Aires foi abrigo e presença. Foi o abraço dedicado à Rosana, o orgulho nos olhos ao olhar para o Dudu, o servidor público que caminhou pelas ruas de Canoas com a vontade genuína de servir e fazer a diferença. E como esquecer a sua Marcenaria de Garagem? Aquele refúgio onde o tempo não era medido em horas, mas esculpido em afeto, entre o barulho das ferramentas e o cheiro aconchegante da madeira cortada. Lá, Aires ensinava sem alarde que a vida é um artesanato paciencioso, feito de detalhes e generosidade.

Dizem que o luto é o peso de uma ausência que começa a habitar o peito. É verdade que o coração desacelera e tenta, desesperadamente, estocar o som de uma risada, o calor de um olhar acolhedor e a textura de um momento simples. Mas o legado de Aires nos convida a algo maior do que o choro: convida-nos ao bem viver.

Aires nos ensinou sobre a arte de agregar. Em torno de uma mesa, de uma conversa sem pressa ou do famoso — e imbatível — churrasco de Canoas, ele mostrava que viver bem é simplificar. É rir fácil, estender a mão sem pedir nada em troca e transformar qualquer dia da semana num motivo de celebração.

Por isso, este rito não é um adeus. É um “até logo”. Aires era grande demais para fechar as portas na despedida.

Ao olhar para a dor que hoje toca a Rosana, o Dudu, os familiares e cada amigo, o chão parece oscilar. Mas logo se firma no piso sólido das memórias boas. A partida precoce nos assusta, mas a dádiva de ter compartilhado a existência com ele permanece intocada.

CAMINHOS DA VIDA | Amigos que perdemos pelo caminho

Se há alguma certeza nessa travessia, é a de que no outro plano a acolhida já está garantida. Consigo imaginar claramente: Aires já deve ter buscado a lenha, acendido o fogo e ajeitado a churrasqueira, garantindo que a brasa esteja no ponto certo. Quando chegar a nossa hora de subir a última lomba, seremos recebidos com aquele mesmo sorriso largo, o cheiro de churrasco no ar e a certeza de que a amizade nunca morre.

Até lá, que a passagem de Aires Vigel seja o nosso lembrete diário: a vida é curta demais para não celebrarmos a presença de quem amamos, para não acendermos nossas próprias brasas de afeto e para não vivermos com a inteireza de quem sabe agradecer.

Obrigado por tudo, meu amigo. A vida valeu — e vale — muito a pena.

 

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