Por Piazotti da Barra do Quaraí
O vento minuano sopra lá fora, mas o frio que realmente chama a atenção neste ano eleitoral no Rio Grande do Sul é outro: o gelo da indiferença. Nas rodas de chimarrão, entre um gole e outro, o assunto até esbarra na política, mas o tom não é de paixão. É de cansaço. O gaúcho, historicamente conhecido por sua postura altiva e debates acalorados, parece assistir ao cenário atual com os braços cruzados e um silêncio que diz muito mais do que qualquer discurso de palanque.
A verdade é que a nossa tradicional polarização construiu um muro tão alto que quase ninguém mais consegue saltar. De um lado, forças que se alimentam mutuamente do ódio ao adversário; do outro, os mesmos “senhores feudais” de sempre — aquelas velhas oligarquias e caciques políticos que, por trás das cortinas, continuam movendo as peças do tabuleiro, manipulando narrativas para um lado ou para o outro, conforme sopra o vento da conveniência. Eles não querem o debate de ideias; querem a manutenção do feudo. E, nessa dança de compadres, quem deseja debater o futuro real do Estado acaba ficando sem espaço, sufocado pela gritaria dos extremos.
É nesse cenário de apatia que fomos bombardeados, dias atrás, por um retrato estatístico. Um levantamento recente aponta uma aparente liderança com 37% das intenções de voto no primeiro turno, seguida de perto por um segundo bloco com 32%. Uma terceira via tenta respirar na fresta com seus 18%, enquanto o restante do cenário se fragmenta em fatias quase invisíveis, como os 3% de um quarto candidato.
Olhando assim, parece uma disputa vibrante. Mas o diabo mora nos detalhes — e na memória recente do eleitor. Bastam alguns dias para que outro instituto lance números completamente diferentes, virando o cenário de cabeça para baixo. O eleitor, que não é bobo, olha para essa guerra de gráficos e sente o cheiro de queimado no ar. Fica a incerteza incômoda: as pesquisas refletem a realidade ou tentam moldá-la?
Seriam elas encomendadas por este ou por aquele padrinho político apenas para criar a ilusão de uma vitória inevitável?
Essa desconfiança legítima empurra o cidadão para o desinteresse. Quando olhamos para as simulações de segundo turno, o cansaço do gaúcho fica escancarado. Em cenários que deveriam polarizar o Estado, a soma de brancos, nulos e daqueles que simplesmente dão de ombros (“não sabe/não respondeu”) chega a bater quase um terço do eleitorado — como os 19% de indecisos somados a 11% de brancos e nulos em uma das projeções. É muita gente lavando as mãos. É o grito silencioso de quem não se sente representado por esse Gre-Nal sem propostas.
E é aqui que precisamos colocar uma pulga bem atrás da orelha.
Eleição não é corrida de cavalos para a gente apostar apenas em quem “está na frente” ou no “menos pior” indicado pelas pesquisas. Quando votamos guiados apenas pela estatística da semana — que muda ao sabor do vento e dos interesses —, entregamos o nosso poder de escolha nas mãos de quem financia esses números. Entramos em uma fria.
O voto não pode ser um ato de conformismo ou de aposta cega. Ele precisa vir de encontro aos nossos anseios reais: a saúde que falta no posto, a escola do filho que precisa de reforma, a segurança da nossa rua. O candidato ideal não é o que pontua melhor no gráfico encomendado pelo padrinho político da vez, mas aquele cujas propostas conversam com a sua realidade.
Nas próximas semanas, quando a propaganda começar a invadir a sua TV e os gráficos coloridos tentarem lhe dizer o que pensar, faça um favor a si mesmo: mude de canal ou feche a aba do navegador. Questione. Investigue os méritos, o histórico e as ideias de quem pede o seu voto. Não se deixe guiar como um tonto por pesquisas que hoje dizem sim e amanhã dizem não.
Afinal, quem vai carregar as consequências da escolha pelos próximos quatro anos não são os institutos de pesquisa, nem os senhores feudais em seus gabinetes climatizados. É você, com o seu mate na mão e o destino do Rio Grande nos ombros.
*O Piazotti esteve doente pela mudança do tempo, ainda delirante, voltou a escrever bobagens ou não, né?









Uma Resposta
Infelizmente as pesquisas manipulam sim. Basta que se pergunte nos lugares certos que os percentuais mudam muito. As pesquisas são encomendadas com alvos de localização. As pesquisas não são necessariamente falsas, apenas não refletem a realidade do todo eleitoral e servem para manipular. Quem vota com base em pesquisa não tem nem ideia do que está fazendo, está apenas sendo usado.