A frase “pesquisa não é destino” nunca foi tão verdadeira quanto no Rio Grande do Sul. Em um estado marcado pela polarização ideológica e por um eleitorado que costuma decidir o voto nos “acréscimos do segundo tempo”, as sondagens eleitorais frequentemente deixam de ser instrumentos de aferição científica para se tornarem peças de propaganda política.
Para entender por que tantas pesquisas “furam” ou são “encomendadas” com viés, é preciso mergulhar na história das reviravoltas que deixaram estatísticos e marqueteiros perplexos.

A pesquisa como narrativa, não como dado
No jargão político, existe a “pesquisa de consumo interno” e a “pesquisa para publicação”. A primeira serve para o candidato corrigir rotas; a segunda, muitas vezes, serve para criar uma sensação de vitória inevitável ou para forçar o chamado “voto útil”.
O grande perigo reside nas metodologias opacas: institutos que surgem apenas em anos eleitorais, financiados por CNPJs obscuros ou com estratificações que não refletem a realidade demográfica do interior do estado. No RS, onde o peso das colônias e do agronegócio é distinto da região metropolitana, um erro na amostragem geográfica pode distorcer o resultado em até 10 pontos percentuais.
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O caso de Germano Rigotto (PMDB) em 2002 é, até hoje, o maior trauma dos institutos de pesquisa no Brasil. Durante meses, a eleição para o Palácio Piratini era dada como certa para um segundo turno entre Tarso Genro (PT) e Antônio Britto (então no PPS).
Rigotto aparecia com míseros 2% a 4% nas intenções de voto. Ele era ignorado pelos debates e pelas análises. No entanto, o eleitor gaúcho, cansado do confronto direto entre o “brito-pedágio” e o “estilo petista”, encontrou no peemedebista uma terceira via silenciosa. Nas urnas, Rigotto não só foi para o segundo turno como terminou em primeiro lugar, derrotando Britto e, posteriormente, Tarso. As pesquisas falharam em detectar o movimento de migração de votos que aconteceu em menos de 15 dias.
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2006 e 2014: A repetição do padrão
O roteiro se repetiu em 2006. Rigotto, desta vez buscando a reeleição, aparecia nas pesquisas de véspera garantido no segundo turno contra Olívio Dutra (PT). Yeda Crusius (PSDB) era tratada como uma candidata sem fôlego. O resultado? Yeda surpreendeu, deixou o governador de fora da disputa final e venceu a eleição.
Em 2014, o fenômeno foi ainda mais acentuado com José Ivo Sartori. Ana Amélia Lemos (PP) liderou quase toda a corrida, polarizando com Tarso Genro. Sartori era o “terceiro elemento” que mal pontuava. Na reta final, a desidratação de Ana Amélia não beneficiou o PT, mas sim o “Gringo”. Sartori saltou de uma posição irrelevante para uma vitória esmagadora, provando que o eleitor do RS utiliza a pesquisa de véspera para identificar quem pode derrotar o candidato que ele rejeita, e não necessariamente para seguir o líder das sondagens.
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Como identificar uma “Pesquisa Encomendada”?
Para o eleitor atento, existem sinais de alerta que vão além do nome do instituto:
O Contratante: Verifique se o instituto foi pago por um partido político ou por um veículo de comunicação isento. Pesquisas pagas por diretórios partidários têm uma tendência natural a “ajustar” as perguntas para favorecer seu candidato.
O Enunciado: “Se a eleição fosse hoje e os candidatos fossem X e Y…” é diferente de “Em quem você jamais votaria?”. A ordem dos nomes na lista estimulada altera o resultado psicológico.
A Amostragem de Campo: Pesquisas feitas exclusivamente por telefone em um estado com grandes áreas rurais tendem a ignorar o voto de periferia e do campo, favorecendo candidatos com melhor desempenho entre as classes média e alta.
O “Sujeito Oculto”: Quando um instituto desconhecido registra uma pesquisa alegando “recursos próprios”, o sinal vermelho deve acender. Institutos são empresas que visam lucro; raramente gastam dezenas de milhares de reais sem um financiador por trás.
As pesquisas são fotografias de um momento, mas no Rio Grande do Sul, o eleitor costuma trocar de roupa segundos antes do flash. Olhar para as sondagens com ceticismo não é negar a ciência estatística, mas sim reconhecer que, na arena política, os números são frequentemente usados como armas de manipulação.
A história prova: no Piratini, quem ri por último nas pesquisas, raramente ri nas urnas.








